Um calor frio

São momentos tórridos, no entanto sinto-me congelada. Eu ando por entre gentes, prédios, postes e parcas árvores. São muitas as gentes, e muito poucas as árvores. A alegria é escassa, o riso desesperado. Por sorte, não há esperança, mas também não há aonde ir. A apatia parece ter feito ligação com as moléculas que respiro.…

Nós, os criadores de parques temáticos

Hoje, pela manhã, calcei meu par de tênis roxo e fui ao aterro, para uma caminhada. Caminhei, caminhei um pouco mais, e depois de 300 metros não pude mais reconhecer onde estava. Havia gente por demais naquelas pistas normalmente tranquilas. Uma multidão vestindo roupas cor de neon, cujos pescoços serviam de cabide para medalhas. Mais…

Sedutores Silêncios

- O silêncio é tão parte do mundo quanto qualquer som. E silêncio não é ausência de som, ou inexistência de comunicação – afinal, alguém lembrou que há a telepatia! O silêncio, entretanto, é uma forma de expressão bastante difícil de interpretar, especialmente quando não temos o sentido da visão à disposição. O mundo é…

A dor A dor A dor A dor

. 05.08.2017 Nem sempre é preciso escrever tanto. Às vezes as lembranças são memórias  fabricadas. Fecho os olhos, vou a um lugar que não sei se realmente já fui, ou se o criei. Mas lembro de que minha criação também faz parte da realidade. É tão real quando esta dor em minha garganta, provocada por…

Raspas e Restos

∞ 21.02.2018  No início do ano, logo no início, alguém me falava de não sermos espectadoras de nossas histórias. Que nós, mulheres, precisamos ser protagonistas de nós mesmas. Foi o discurso mais próximo daquela sororidade que ultrapassa o discurso, que já ouvi. Uma mulher que diz à outra, dizendo a si: veja bem, você tem…

Contrações

Por alívio, parece enfim outono. Há um cheiro de outono, uma brisa de outono, um sol de outono, bancas repletas de caquis doces, vermelhos e baratos, e um sentimento em resposta a tudo isso que é produzido no topo do estômago. Às vezes penso que a importância não está no coração, mas no estômago; tenho…

Conversas. Avarias. Sensibilidades.

Assim, em várias tardes de silencioso lamento buscava eu, na tentativa de algum sentido, compreender que perder uma conversa é não ter mais um interlocutor que nos permita ver ideias próprias, e ideias do outro, e ideias do mundo. Porque como se por um evento de rompimento, a conversa não existisse mais. Poderia dizer que…

A dança do fogo

Sentava em uma das muretas que me permitia a visão do coreto e do conjunto. E pensava sobre essa coisa que pouco sei, de viver em comunidade; sobre formas de se fabricar um mundo e pensar uma vida em que se vive não exatamente junto, em comunhão, mas orquestrada. Um jovem em meio aos velhos.…

Quase não me vejo

¨¨ Eu recito palavras do passado e nelas não encontro presente, mas certamente futuro. Eu caminho sozinha por entre os homens desta cidade, mas a tarde é minha. Eu caminho sozinha por esta noite, mas o luar é meu. E de tanto olhar para longe, esqueci-me de enxergar o que estava perto. \\\ Tento escrever…

Pois o que passou sem ser passado

. (Ou quais e quando são nossas fronteiras?)   Eram dias de deslocamento. Eu pensava na guerra e nos acasos. E de como a guerra não é nenhum acaso. E na fuga, na verdadeira última razão de fuga: a vida. Eu pensava nisso e no que seria essa outra ou mesma coisa que nos faz…