O verão de 2015 foi realmente quente e eu só conseguia pensar no dia em que entraria no avião para Salvador, no ônibus para Valença e então no barco, rio adentro, até Boipeba.

Estava quente. Muito quente.

A sorte é que costumava trabalhar em um lugar perto de casa, que me custava apenas 20 minutos de caminhada sob o sol. Mas, vez em quando, minha presença era requisitada na Ilha do Fundão – aquele lugar lindo, estragado pela baía poluída e a urbanização desumana. Sempre foi um lamento ir ao Fundão: 20 minutos apenas até Laranjeiras; pelo menos 10 minutos de espera até passar o 485, sem ar-condicionado, lotado de estudantes transpirando álcool e ferormônios: um cheiro único.

Mas é de se notar que apesar do cheiro e dos rostos brilhosos, os estudantes continuam lindos. São todos lindos. Jovens. Felizes. É verão. Tem Fundão, mas tem praia. Tem havaianas. Tem pele. Tem suor, mas tem banho gelado.

Sempre que me encontro em um ônibus sem ar-condicionado durante o verão, me vem à cabeça como seria bom ainda ser graduanda para poder vestir qualquer pano leve, calçar havaianas e transpirar o suficiente para refrigerar o corpo. Mas como já beiro os trinta, trabalho e preciso andar a caráter. É um verdadeiro sacrifício andar apresentável no calor. E raramente tenho sucesso em manter-me apresentável. Aliás, nada como vestir trapos! Ou sequer vestir.

Então, naquele dia, fui ao meu destino de Fundão, buscando manter-me o mais imóvel possível, para controlar a transpiração. Cheguei razoavelmente seca e perfumada. Meus pés incham e machucam nos sapatos em dias quentes, mas ainda não incomodavam. Fiz tudo o que me era destinado na condição de trabalhadora liberal – a desgraça do capitalismo – e às 16hrs já estava livre para transpirar o quanto meus poros desejassem, e para levantar saias e mangas. Despi-me o quanto pude e rumei para o ônibus da volta. Aguardei sob o sol durante pelo menos 20 minutos. A esta altura, meu pé já estava querendo se livrar dos sapatos e perambular livre por aí.

O ônibus chegou. Parte da viagem tive que ir de pé. Mas chegando na Cidade Nova – que é tão feia quanto qualquer ‘novo’ ou ‘neo’ pode ser – o ônibus deu uma bela esvaziada e então pude sentar.

Muito antes de sentar, havia percebido que o meu vizinho de transporte, que conversava com uma amiga, pouco desviava o olhar de mim. Eu sempre fico constrangida quando me olham demais. Naquele dia pensei que era pelo meu estado em decomposição, bochechas rosadas e suor incessante. Por isso, ignorei.

Quando sentei, foi naquele banco mais alto, exatamente de frente para ele, que ainda me encarava com olhares furtivos. Mas eu estava tão aliviada em sentar que o ignorei mais uma vez. Acomodei as saias acima dos joelhos e os pés, já machucados, sobre os sapatos; a mochila entre as pernas, os braços relaxados. Tudo para sentir ao máximo qualquer frescor que o vento quente que entrava pelas janelas permitisse.

De repente, sem eu conseguir perceber ou prever, ele tocou em um dos pontos vermelhos em meu pé e perguntou “o que aconteceu?”. E daí seguiu uma conversa sobre a sensibilidade dos meus pés. E daí uma conversa sobre cachoeiras e, então, sobre as viagens do fim de ano.

Ele certamente tinha a mesma idade que eu, pois estava no fim do mestrado em geociências. Mas parecia ainda um graduando cheio de hormônios. E então eu fiquei pensando que talvez eu também pareça uma graduanda cheia de hormônios, que às vezes se veste de trabalho, mesmo sem saber se comportar.

Não perguntei seu nome, ele também não perguntou o meu. Mas antes de descer ele me disse, “espero que a gente se veja de novo”. Eu também esperava, mas não disse nada, apenas sorri. O Rio tem disso. Há pessoas que sempre encontramos, não importa em que lado da cidade, e outras que nunca vemos. Agora eu pego o 485 quatro ou cinco vezes na semana, às vezes duas vezes ao dia, mas nunca mais o vi. Acho que, assim como eu, mudou os caminhos que faz todos os dias.

Aquela conversa tão improvável me deu um suspiro de vida naquele calor mortal. Aliás, acontecimentos simples e improváveis são os meus favoritos. Quanto mais improvável e simples, mais eu me contento.

Um mês depois já estava em Boipeba e depois na Chapada. Na noite de ano novo dancei forró com os pés no chão, vestindo um trapo qualquer, no quintal da casa da Dona Raquel. Era noite de ano novo, mas impossível saber quando o ano começava. Não tinha relógio, não tinha sinal, também não tinha lua, só tinham estrelas. Muitas estrelas.

Por isso o ano novo era amanhã. Que na verdade era só um outro dia e não outro ano. E naquela noite, daquele ano para o próximo, só me importava o meu pé no chão, sentindo o frescor da terra. Dancei com o Seu Miguel, dancei com o Carlitos, dancei com a Renata e mais alguns desconhecidos. E os meus pés dançavam com o chão e seu barro vermelho batido.

No outro dia, que já era um outro ano, fomos à uma linda cachoeira. Eu havia sonhado a noite inteira e ouvindo o jorrar das águas sobre as pedras, dos meus olhos jorraram lágrimas. A água lavava a terra, a lágrima lavava a alma.

Caminhei só para um braço de rio, encontrei um dos desconhecidos com quem havia dançado no ano anterior. Ele seguiu para a cachoeira e eu me deitei na pedra para um banho de sol. Quando já tinha as ideias mais organizadas e sentia calor banhei-me e voltei para a queda d’água. Banhei-me de novo e voltei a deitar na pedra.

Sem modos ou preocupação, olhando o céu, as folhas das árvores balançando pela brisa, as nuvens que se moviam construindo formas e desformas, ao mesmo tempo em que ouvia uma dupla tocando Raul Seixas e Novos Baianos no violão, e sentia o odor de seus pitos.

Olhando, pensando.

Sentindo, pensando.

Ouvindo, pensando.

Cheirando, pensando.

Pensando e pensando, até que vejo um corpo passar por mim, me olhar e tocar meu pé, que descansava sobre a pedra. Como se toca o ombro de alguém, mas o pé. Era o rapaz com quem havia dançado no ano anterior vestindo trapos e com os pés despidos.

Imediatamente me recordei do menino no ônibus, no suspiro de verão e também do Tarantino e suas personagens femininas de pés descalços. Queria ter levantado e feito a pose que a Mia Wallace faz com os pés antes de iniciar a dança com o Vincent Vega na Jack Rabbit Slim’s. Mas apenas imaginei a cena e segui lembrando que naquele dia, no ônibus, me via naquela transição entre graduanda e trabalhadora, que agora penso que nunca irá acabar. Juntei a lembrança aos pés descalços, à Mia Wallace, ao Vincent Vega, ao Tarantino e na minha mente começou a tocar “girl,[tan tan tan tan] youll be a woman, soon, soon, youll be a woman”.

 

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