Ainda era início de setembro, mas a próxima estação já anunciava sua chegada, agitando a esperança que em mim ainda habita. As borboletas vieram com a brisa de primavera, que entrava pelas janelas, e se acomodaram em meu estômago. Lindas melancias começaram a ser desfiladas nas feiras de rua, sugerindo um presente ao paladar. E a expectativa era a de que aquele sete de setembro tivesse um cheiro específico, de vinagre. Mas choveu. E, então, o domingo em que se comemorou anos de independência teve um cheiro de terra molhada e apatia; esta enfermidade que assola o lado de cá do hemisfério sul.

—–

Já não se pode mais prever quando, entretanto é certo que irá chover. A brisa ainda é fresca, mas no entremeio de frescor há pinceladas de calor. Aos poucos a pele começa a se umedecer. As árvores ficam mais verdes. Os pássaros mais barulhentos. E os mosquitos começam a dar o ar da graça. Assim começa a primavera.

É  fim de tarde e já esfriou. Mais uma vez estou sem mangas, pois vi o sol pela manhã e imaginei um dia de verão. Nunca sei como me vestir na primavera. Acho que é a única estação do ano em que um vestido leve cai bem com casaco quentinho e galochas.

Queria estar nos campos de frutos e flores, para a colheita. Mas não posso. Meu trabalho é outro. Se a primavera durasse todo o ano, mudaria de profissão. Talvez plantasse goiaba para fornecer ao restaurante universitário, para que os alunos não tivessem mais que beber suco sabor goiaba, ao invés de suco de goiaba. No interior, a goiaba é gratuita, sobe-se no pé e serve-se, e certamente achará algum bicho, principalmente se for goiaba branca.

– Será que alguém já tomou suco de  goiaba branca?

– Eu nunca sequer vi!

Talvez seja pelos bichos que o restaurante universitário prefira a goiaba de mentira, não dá trabalho. Na terra em que cresci diriam que não tem problema, “o que não mata, engorda”, “faz bem para os olhos”, “ajuda a criar anticorpos”. Talvez minha saúde vá bem pela quantidade de goiaba e bichos que já comi, diretamente do pé. Quando eu ia para a escola, na primavera, tinha goiaba no caminho de volta para casa. Agora não vou mais à escola e só vejo goiaba engarrafada. Essa deve ser uma das facetas da vida adulta.

É realmente uma pena que o suco contemporâneo seja sabor goiaba: não tem gosto, e vitaminas nem pensar! O açúcar não é frutose, é sacarose, a cor é petróleo. Tá tudo errado por aqui. Até a experiência de goiaba e primavera. Talvez esteja na hora de ter filhos, para voltar a ter primavera e goiabas nos pés. Alternativamente poderia tentar uma regressão hipnótica.

No início da primavera as árvores ainda estão recompondo suas folhas, mas já é possível perceber uma sede por vida nos ramos. É tempo de brotar! De renascer! Só que para germinar, é preciso muita água. Tanta água que até parece que para renascer a natureza precise, antes, chorar sua própria morte. É cíclico. É preciso morrer para renascer. Eu fico me perguntando se as plantas-filhas que nascem das sementes da planta-mãe trazem em si alguma alteração genética. Minha ignorância me leva a crer que haja hereditariedade também nas plantas. E, assim como na espécie humana, imagino que a natureza cuide da seleção natural. Deve ser por isso que as flores parecem ser mais bonitas a cada ano. Ou talvez seja porque estamos eliminando o verde e qualquer cor e, neste ambiente insalubre que criamos, uma única plantinha tem o poder de nos trazer tão forte suspiro de alma.

– Na primavera eu sempre fico confusa sobre que música ouvir enquanto me banho.

– É porque é preciso descobrir a música da água quando encontra o chão.

Me sinto uma pessoa sem graça, nunca dei nome às minhas plantas. Apenas ao abacaxi, que apelidei de “abacaxi sofrido”. Tenho muita dó de vê-lo no vaso, enquanto deveria estar em um lindo quintal, dando frutos. Mas ainda não encontrei sua casa. Quero um lugar onde possa visitá-lo.

Certa vez, li que é preciso conversar com as plantas, por isso que acho importante dar nome a elas! E fico chateada por não tê-lo feito. Algumas plantas que plantei, levei para a casa de meu pai (um abacateiro, um abacaxi, uma atemoia, um limão, duas laranjas, uma tangerina), e disse que conversasse com elas. Um dia liguei para ele e perguntei se às vezes não se sente sozinho, com vontade de conversar com alguém, e ele me disse: “eu não, eu converso com as plantas! Você disse para falar com elas, então eu falo, ué!”. Fiquei tão feliz!

Também li outra vez que as plantas têm memória e sentem dor. Era uma pesquisa que me pareceu fiável. Desde então, todas as vezes que vou podar as lindinhas peço desculpas e faço carinho. Não sei se adianta na dor, mas gosto de pensar que sim.

Recordo-me da música do Gil e às vezes penso que se eu fosse uma flor, gostaria de ser uma couve-flor, “que além de ser uma flor tem sabor“. Mas lembro de que outras flores também têm sabor, e então fico em dúvida sobre qual flor gostaria de ser. Talvez todas. Ou nenhuma, para poder admirá-las!

– Se algum dia rolar casamento, um buquê de tomilho, por favor!

– Anotado!

Já estamos na segunda semana de primavera e estou em Brasília, a cidade onde a primavera não importa. Continua um lugar seco e vermelho. As flores do cerrado têm muita vontade de vida, pois florescem neste clima inóspito. Talvez seja uma evolução genética. Mas hoje a primavera está em meu prato, junto das folhas me serviram frutos e flores. Lindo!

Estou lendo o capítulo “O Futuro do Mundo” do livro do Huxley sobre a situação humana e logo no começo ele diz:

“Os hindus têm uma ideia cíclica do tempo – a noção de que há uma recorrência eterna e de que o tempo repete sempre o mesmo padrão. Conforme a ideia dos hindus, agora estamos na última fase de um dos grandes ciclos, o Kali Yuga, a Idade do Ferro. Estamos nele há 2 mil anos e aparentemente teremos de prosseguir por mais 35 mil anos, durante os quais as coisas vão piorar o tempo todo – segundo os hindus, “ainda não vimos nada”. Depois disso haverá uma explosão geral, e então, depois de muitos milhões de anos, poderemos recomeçar numa Idade de Ouro. Uma visão similar do tempo existia entre os antigos gregos: havia um grande ano que se repetia continuamente.” (HUXLEY,  A. A situação humana, 2016, p. 104)

Esse trecho me fez pensar que os hindus têm uma noção do tempo muito similar à ideia de estações. Por ser cíclica. É como eu dizia sobre a natureza, parece que ela precisa morrer, chorar seu luto, para então renascer. Mas não acho que volte ao mesmo lugar, acho que é uma espiral que vai abrindo. Na verdade, acho que é como a espiral do conhecimento. É uma espiral, o tempo, assim como as estações. Gira e gira.

o-tempo

Para mim, a visão hindu faz mais sentido que a visão da filosofia ocidental, de que o tempo é algo que se move para uma direção de forma irreversível. Acho demais linear. Demais não natural. No fim, creio que o tempo é parte da natureza.

E junto do tempo, o vento é o senhor do movimento. E a tecnologia parece ser a antítese do fluxo. Estou escrevendo e, sobre a mesa, meu celular não para de vibrar, me alertando de todas as informações inúteis que não preciso saber, mas tenho curiosidade. EU ODEIO O MEU CELULAR!

Fui uma pessoa que resistiu bravamente ao smartphone e lembro que uma vez, irritadíssima, larguei três amigos na mesa de um bar e fui para casa porque eles estavam mais interessados em conversar com o telefone do que comigo. Temo hoje ser como eles naquele dia. E me entristeço.

Há dias em que mexer na porcaria do celular me causa tanto mal-estar que chego a pressentir uma ânsia de vômito e, às vezes, minha cabeça dói para valer. O mundo tecnológico está me intoxicando, é isso o que sinto.

Eu nunca havia comprado um celular, sempre pegava os aparelhos antigos do meu tio, até que este ano fui assaltada e me rendi. Gastei R$800 golpes: que é mais que a metade de um mês de aluguel; que é uma viagem curta; que são dois meses ou mais de feira; várias noites na lapa… Entretanto resolvi gastar este dinheiro em algo que me adoece, porque é uma necessidade social (imagina trabalhar sem whatsapp?). Que tristeza!

Assim, acho que encontrar o tempo, e o fluxo, tem que ver com desligar o celular. E mais, aceitar que os outros também desliguem seus celulares e fiquemos sem respostas imediatas. Mas é difícil, porque estamos viciados. Agora sinto como se não soubesse o que fiz com meus dias nos últimos anos. Às vezes percebo que andei pela rua e não vi quase nada, que não a porcaria do telemóvel, que vibra sem cessar. Será que as respostas precisam ser tão imediatas?

No aeroporto, quase não consigo compreender o trânsito dos humanos. Me sinto em um videogame. Estou em um salão onde pessoas estapeiam os celulares falando com qualquer um que não esteja neste salão cheio de pessoas. Estamos em um ambiente populoso, mas muito sós.

No início dos anos 2000 assisti a uma reportagem que falava sobre a vida nos centros urbanos, onde há muita gente e muita solidão. O contrassenso era ilustrado pelo edifício Copan em São Paulo, um depósito de pessoas solitárias. Esta reportagem mudou minha percepção do espaço urbano desde então. Eu realmente não me entendo completamente com a comunicação mediada pela tecnologia. Apesar de usar, e muito, não me satisfaz.

Estou novamente em Brasília, que amanheceu chuvosa. Fiquei feliz, pois ontem estava um calor mortal e aquela secura habitual. Mas a chuva por aqui é engraçada, porque não é chuva. Parece, na verdade, que o céu está cheio de goteiras. Aqui, o coletivo de goteira é garoa. Para essas goteiras acho que o Seu Vilson não dá conta, melhor chamar o Pedro e pedir para caprichar no trabalho, que as flores precisam florir e as mangas amadurecer. Há muitos pés de mangas nesta cidade. Que sorte!

Brasília é a cidade das repartições. Na repartição onde estou, a moça que limpa o banheiro feminino é surda e, por isso, só se comunica por libras. Desde que comecei a frequentar este lugar – o banheiro da repartição – passei a observá-la, porque ela ficava na frente do celular conversando com alguém em libras, com a câmera do celular ligado. Então pensei: eu reclamo da tecnologia, mas é muito maravilhoso que surdos e mudos agora possam conversar com alguém pelo telefone.

Ontem fui ao banheiro e ela estava lá, toda perdida nas matemáticas para apostar na loteria. Eu achei muito curioso e fui bisbilhotar. Quando me viu, ela começou a fazer vários sinais que eu infelizmente não compreendi. E então escreveu no papel das contas: “você sabe libras?”. Eu respondi que não e ela escreveu: “imprima os sinais que eu te ensino, você é legal”. E me ensinou a dizer “oi, amiga”, “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Fiquei emocionada.

Quando voltei ao hotel, estudei o alfabeto em libras, que já sabia um pouco. Hoje, a primeira coisa que fiz depois de dizer “oi, amiga” foi perguntar o seu nome e me apresentar. Ela se chama Celma. Talvez esse tenha sido o meu presente de primavera. Agora quero aprender como se diz “miga sua loca” em libras.

Já se foi o primeiro terço de primavera, e acho que criei muitas expectativas com a estação do renascimento e, por isso, ela me deu uma rasteira, para relembrar que é preciso o luto para renascer. Cheguei a duvidar do sangue que corre em minhas veias, mas renasci.

Renasci e me perdi na primavera, quase que em um processo catártico de relembrar que a vida é trânsito. Tudo é movimento. Dentro de mim também. Fora de mim também. Eu ando, o vento sopra, o tempo passa, meu sangue corre, circula, se transforma. Minhas emoções levitam, perambulam, às vezes se escondem, às vezes me assustam, por vezes me confortam. Sua presença é sempre notada, sua ausência também é presença.

E assim, perdida, já não sei.

– Ainda é primavera?

Me perdi nas estações, que estava pensando na lua. A lua também é cíclica, cresce e míngua. Eu também. Acho que é porque sou água. Há marés de mim mesma. Os dias passam e penso que eu também tenho que passar daqui para outra estação. Mas não aquela do ciclo que já conheço ou espero. Que a vida é trânsito. Uma primavera não é outra primavera, apesar do mesmo nome. O nome é nomenclatura, não é conceito.

– Ainda é primavera?

– Ainda não sei, mas é daqui a outra estação.

A vida é trânsito, mas não se sabe o quê transita. Dentro ou fora de mim. Também não se sabe o que transitou em novembro. Novembro foi um mês sem palavras. Muitos pensamentos, poucas palavras. Um vazio comunicativo e, portanto, interpretativo. No entanto, muito aconteceu. Só não sei exatamente o quê. Foi uma sobreposição de acontecimentos e pensamentos, classicamente organizados em um sistema caótico, dos quais não acessei um sequer. Novembro foi um vazio ressonante. Novembro foi a organização do caos.

É início de dezembro, à primavera ainda restam alguns dias de suspiro e palavras. Neste processo primaveril, foram muitas as palavras que mudaram a minha compreensão do ser e estar. Uma delas foi o devir – o resgate do devir. Até penso que deveríamos sempre dispor três verbos: ser, estar e devir. O concreto, o transitório e o processual (ou o concreto, o instantâneo e o transitório – ainda não sei). Sempre achei uma insanidade comunicativa algumas línguas não diferenciarem ser de estar; e lamento não termos incorporado a noção de devir.

Esta estação de agora é a primavera, mas não está a primavera; é a primavera em devir-outono; querendo voltar no tempo, ignorando o inverno, ou avançar no ciclo, ignorando o verão. E a intransigência da primavera me colocou em confusão; estou no meu eu de devir à procura das peças de mim mesma que se embaralharam e precisam ser reorganizadas. Talvez este devir seja o meu ser. Talvez não. Talvez o devir seja o caos e o caos a única concretude.

O meu punho ainda dói, mas continuo querendo escrever. É uma mistura estranha de dor e necessidade.

– A partir de quando o satisfazer de uma necessidade se tornou um ato dor?

– Talvez a reposta esteja na bíblia!

Alguém me disse que a bíblia é a grande referência interpretativa do mundo que se construiu. Talvez seja a hora de lê-la para aceitar que o gênesis é uma construção que ruma ao apocalipse. Ou, simplesmente, para parar de pensar absurdos.

Ter escrito a primavera me fez perceber quantos lugares podem ser habitados em tão pouco tempo – me fez até pensar em ler a bíblia. A primavera nunca mais será a mesma. A lua, que consigo se apresentou, também não. E eu, jamais fui ou serei a mesma: sou o devir de mim mesma. E assim, o mundo que orbita em mim não se repete. É a representação do caos!

A vida é trânsito. É também cíclica, mas o ciclo está em trânsito. Trânsito não apenas de transitório, mas principalmente de processual. Transitar é um processo.

– Agora, por todos os lados, sinto cheiro de cominho. Será o verão que se aproxima?

– Ainda falta, mas estou cansada. A primavera ainda não acabou, mas decreto seu fim. Que eu estou cansada!

Em verdade, a primavera já acabou, estamos em outro processo: do primaveril ao estival.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s