Nicco chegaria por volta do meio dia de um sábado e Cora não estaria em casa, mas pedira aos funcionários do prédio que o deixassem entrar. Quando o visitante chegou, o porteiro levantou-se e foi verificar aquele tipo parado em frente ao prédio; meio hippie, meio sujo, de mochila. A seu ver, Cora jamais receberia sujeito tão estranho em sua casa, e ficou preocupado em deixá-lo entrar, mas como ordenado, o fez.

Chegando em casa, Cora encontrou um rapaz de pés sujos roncando no sofá e só conseguia pensar no quanto se arrependeria em ter-lhe cedido um teto por alguns dias. O ronco era realmente irritante, então ela buscou fazer o máximo de barulho possível, mantendo aparência de naturalidade, até que o italiano acordou e bocejou mal educadamente, abrindo uma enorme boca e deixando toda a arcada dentária à mostra. Eram muitos dentes!

Nicco cumprimentou Cora sem mesmo levantar-se do sofá. Quis saber como ela estava, falou um pouco da vinda de Salvador pela Rio-Bahia e, então, perguntou onde ficava o supermercado mais próximo. Levantou-se, calçou os chinelos e saiu dizendo que não se preocupasse: quem faria o jantar seria ele. Tipicamente italiano, Nicco já se sentia em casa.

Naquela noite, Cora e Nicco jantaram o spaghetti alla carbonara que ele preparou, ouviram música, conversaram e beberam vinho até tarde da noite. Ao fim, dividiram a cama, mas nada aconteceu. Dormiram profundamente.

Na manhã seguinte, Cora acordou com o aroma do café passado por Nicco, misturado com o cheiro de cigarro que ele fumava enquanto preparava algo para comer, deixando as cinzas caírem no chão. Cora até esboçou algum mau humor, mas a sensação de acordar com o café pronto era tão boa que ignorou a bagunça na cozinha. Depois, os dois saíram para caminhar pelo parque do Flamengo até chegarem à altura da Praça do Russel, quando resolveram subir ao Outeiro da Glória – aquele era um dos lugares favoritos de Cora em seu bairro. Mesmo sendo proibido, aventuraram-se até os sinos da capela, quando um funcionário viu-os e os expulsou de dentro da igreja.

Saíram e sentaram-se no chão sob uma árvore logo à frente, admirando o sino onde estiveram, enquanto Nicco enrolava seu cigarro. Naquele momento já sentiam fome, e então resolveram subir até Santa Tereza para almoçar. Passaram o resto do dia caminhando por lá. Quando anoiteceu, resolveram descer.

Cora sentia-se plena. Há tempos não partilhava com um homem a simples felicidade de um dia de caminhada pela cidade. De fato, esse é um prazer que costuma desfrutar solitariamente, e nesse dia pôde sentir que também era bom ter uma companhia de andanças.

Ao chegar em casa, Cora e Nicco se amaram.

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