Acordo. Abro os olhos e apenas levanto a cabeça. Avisto a correspondência burocrática que se acumula sobre a mesa do quarto e penso ser uma pena que atualmente apenas recebamos cartas de empresas e governos. Não mais sentimos o bel-prazer do diálogo ao rasgarmos um envelope.

Lembro que preciso declarar o imposto de renda este ano, pois na pilha há um informe de rendimentos. Parece que tive alguma renda declarável no ano que se passou. Alguns mil reais que recebi por ter feito não sei exatamente o quê. Raciocino que me pagam pouco e que, portanto, o trabalho é conscientemente ruim. Não sinto culpa. Estamos acostumados a nos satisfazer com a mediocridade que a falta de vontade produz. Eis o resultado da meritocracia. Por isso permito-me mais meia hora de sono, no acolhimento que meu cérebro necessita.

Acordo de novo. Desta vez levanto. Preparo um café e coloco alguma música para tocar, enquanto reluto em abrir as páginas dos jornais. Mas o faço. Leio as desgraças e cretinices do dia.

Reflito as duas horas que se passaram desde que acordei pela primeira vez e digo para mim mesma: eu não sabia o que era ser gente grande.

Sirvo-me mais um pouco do café já frio e me recordo daquele português que me ofereceu café gelado pela manhã um par de vezes. Que espúrio! Mas hoje bebo o café frio e aprecio. Leio um pouco mais do jornal. Impossível começar a trabalhar. Sinto como se estivéssemos em uma película, descolados da materialidade.

Mas continuo capaz de sentir o calor, que faz brotar gotas de mar na pele, mesmo depois de um banho gelado, e que faz a roupa grudar no corpo. Esta roupa que não sei por que vestimos. Mas é início de outono e, por isso, há uma brisa que entre tempos atravessa as janelas.

Toda essa tormenta humana… e a brisa. Acho que nunca tinha atentado à porosidade de minha pele da forma como o fiz hoje. Breves segundos de lucidez, agora atropelados por novas notícias. A compreensão colapsa. Não faço ideia por quanto tempo durará a anacronia. Mas enquanto o outono durar, a brisa continuará nos oferecendo segundos de lucidez. Eu adoro o outono.

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