Estrelando: o traído, o traidor, o coadjuvante consciente e o coadjuvante inconsciente.

Contracenando: a informação, a moral e a responsabilidade.

Cenário e enredo: a cidade, o cotidiano e a ciranda.

 

Um amigo sustenta a proposição teórica de que o que nos move é sexo. Eu discordo. Acho que o que nos move é a possibilidade de compartilhar qualquer coisa que não sei exatamente o quê, mas que só a intimidade nos proporciona (apesar do medo irracional da intimidade). Acessar em uma pessoa, de forma privilegiada, aquilo que ninguém mais acessa e descobrir. O sexo pode até ser um símbolo, mas não um resumo. E poderia dizer que por essa necessidade de intimidade e satisfação de curiosidade, como um privilégio, é que a sociedade enfrenta a infidelidade como um problema. A traição não se resume à carne. E arriscaria dizer que todo o seu potencial destrutivo existe em virtude da quebra da cumplicidade.

Mas a traição parece algo inevitável. Desde o momento em que se criou a conjunção, se criou a traição. Há várias coisas que continuamos reproduzindo, apesar dos questionamentos éticos e morais. O nosso modelo social falhou na tentativa de neutralizar a traição, o uso de drogas, a preguiça, o julgamento, o cinismo, a cretinice, etc. Mas o que é, exatamente a traição? Com qual valor e moral rompemos ao trair? Eu não faço nem ideia, mas poço esboçar alguma coisa.

Vejamos a figura do traído. Seria ele uma vítima? E se a pessoa sabe que está sendo traída, mas nada faz porque lhe é mais importante estar bem com o traidor, do que resolver a traição? Pode o traído contribuir para que a traição ocorra?

E o traidor, este ser indigesto que aparece como o causador de todo o problema. Se o faz por estar perdido e precisando descobrir quem é, e não por uma lógica consumista de relações, ainda assim precisa travar um forte dilema moral? E o que é mais imoral: trair a outro ou a si mesmo? Como decidir trair ou não na indecisão existencial?

E uma importante figura desta tríade, pouco considerada, é o coadjuvante, seja na qualidade de consciente ou inconsciente da traição. Onde está o coadjuvante nesta bagunça?

O coadjuvante consciente, que sabe o que está fazendo, mas o faz por amor ao traidor, e sofre por estar traindo, mas ainda assim o faz no fundo me parece que também está sendo traído. O quê a ele diria a moral?

Diferente é aquele coadjuvante consciente, que o faz por uma espécie de prazer pelo proibido. Ou àquilo que é moralmente questionável. Este tenho dificuldades de interpretar.

E há o coadjuvante inconsciente, que parece ser a figura da qual não se pode cobrar nada. Pois, para ele, a traição não existe. E, até que pode também ser um traído, pois possivelmente terá expectativas frustradas. E um enganado, já que poderá estar entrando em um enredo no qual não gostaria de figurar funcionando, muitas vezes, como ferramenta para o traidor tentar se encontrar. É aquele que participa em virtude de uma informação que lhe é negada, negando também a liberdade de escolha.

É uma conta que não fecha. A não-traição parece exigir um código de coerência humanamente impossível. Mas também não podemos sustentar o absurdo. Porque apesar de não sermos a materialização da coerência, confiança e previsibilidade são atributos reais que no fundo têm base na existência de alguma lógica.

Arriscaria dizer que ninguém é realmente feliz traindo, mas ainda assim a traição é inevitável. Então como equacionar a dor e infelicidade que gera, já que sua condenação não basta?

Acho que os relacionamentos abertos vieram a isso. Já que inevitável, ao invés de proibir, vamos permitir. Este mesmo raciocínio serve para liberalização das drogas, aborto, pornografia… Onde junto da liberdade, aparece alguma forma de controle. Mas arrisco dizer que para os relacionamentos o modelo pode solucionar a clareza, mas não a moral, e menos ainda o sofrimento. O arranjo contratual dificilmente conseguirá neutralizar algo que sentimos e identificamos como ciúme, insegurança e angústia (ou amor [?]; não sei onde colocar o amor nisso tudo).

Se esses sentimentos foram socialmente construídos, então precisaremos de uma revolução social. Pessoalmente, o ciúme talvez seja o sentimento que mais dor me cause. Sorte a minha que não muito recorrente. A insegurança consegui resolver parcialmente, com uma dose maior de loucura e irresponsabilidade. Já a angústia nunca entendi do que se trata e qual seria o remédio. É aquele sentimento que aparece sem avisar e, quando chega, faz um estrago devastador, mas não identificado. É o verdadeiro fantasma.

Alguém pode argumentar que a traição é um assunto íntimo e que, portanto, ninguém tem nada que ver com isso. Mas e quando a intimidade transborda? Há algum dano coletivo? Eu tendo a achar que a infelicidade pessoal é uma grande fonte de desventura social. A merda sempre respinga em alguém que não tem nada a ver com a história.

Mas como não tenho a chave da felicidade, alternativamente à revolução, penso na ciranda e em todo o seu potencial teórico-interpretativo para essa minha picaretagem filosofal.

Tenho um amigo que toda vez que vamos em alguma festa juntos ele insiste para que cada um salde uma rodada de cerveja, ainda que possível comprar separadamente. Quando trabalhávamos juntos, costumávamos fazer o mesmo com o bilhete de metrô. É a ciranda!, dizia ele. Fiquei maravilhada a primeira vez que ouvi essa adjetivação aos acontecimentos.

A ciranda é uma dança comunitária. Pode iniciar com uma roda pequena e ir aumentando, conforme novos integrantes apareçam. Não há limite ao número de cirandeiros, nem restrição de qualidade. E o mais importante, é livre a entrada e saída.

Para fazer parte da ciranda, você tem que aceitar que não se trata de uma conta. Há dias que você paga mais do que bebe e dias que bebe mais do que paga. E ninguém sai perdendo. Na ciranda, é possível sair sem dinheiro e voltar para casa bêbado!

Só que para ser ciranda, os cirandeiros não podem querer tirar vantagem da dinâmica. É ciranda, não é pirâmide!

Com a ciranda, podemos tentar resolver parcialmente as traições. Partindo do pressuposto de que todos serão traídos e todos irão trair; restando-nos aceitar essa realidade e participar da roda. Mas é importante, repito, que seja com o espírito de ciranda. Por isso que o traidor compulsivo e o coadjuvante consciente, que sente prazer com o ato de trair não participam, pois com eles não há ciranda. Há tristeza. Tão somente tristeza.

 

 “Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca que amava Dora que amava.
Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava.
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha.”
(BUARQUE, Chico. Flor da Idade)

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