Quando a filha tinha por volta de três anos de idade, Ana colocou Cora em um carro e, de São Paulo, rumaram para o sul do país até chegarem a uma cidade litorânea chamada Itajaí. Ana mudou-se em busca de um amor de adolescência perdido. Cora mudou-se porque Ana assim decidiu. Há um momento da vida em que sua sorte está totalmente entregue ao critério de outrem, e não há nada que possa ser feito quanto a isso.

Cora não tinha a menor ideia do significado dessa mudança. A ignorância irremediável fez com que não tivesse a mais ínfima noção quanto da centralidade deste ocorrido em sua vida. Em verdade, estava muito feliz com a casa em que passara a morar.

Era uma casa de madeira. Tão bela quanto poderia ser qualquer casa feita de árvores. Na frente, dois quartos e uma sala conectada à varanda ao lado, que se abria para um amplo jardim. Ao fundo, outro quarto, copa, banheiro e uma cozinha comprida com janelas para o quintal. O entorno da casa era um pomar!

Perto da varanda, um limoeiro, ainda tímido, mas muito forte. Em frente, à esquerda, uma amendoeira, gigante aos olhos de uma criança. Uma linda amendoeira que em toda a protuberância de sua copa cobria metade da casa oferecendo uma sombra acolhedora. À direita, uma pitangueira, um arbusto que sazonalmente se adornava com pequenos frutos vermelhos como sangue. À direita da pitangueira, um pé de ameixa, comprido e esguio como o pescoço de uma girafa, morada das cigarras – colher seus frutos era o desafio da estação.

Na parte de trás da casa, um pessegueiro doente. Que nunca deu frutos nem flores. Aliás, uma única vez gerou um pêssego feioso que, contra qualquer regra da vida, se putrefez antes mesmo de amadurecer. Cora nutriu especial carinho pelo pessegueiro na esperança de um dia vê-lo florir e brotar. Conversava com ele, expondo toda sua ânsia por vê-lo viver. Mas de nada adiantou. A árvore desistiu. Foi a sua primeira derrota.

À esquerda do pessegueiro, havia uma goiabeira generosa. Uma verdadeira matriarca. À menina, alimentava e dava-lhe abrigo em seu caule, galhos e copas. Cora passou muitas horas de sua infância com a goiabeira, de onde tinha uma vista ampla do bairro e do céu, já que a sua casa se localizava no alto de uma coxilha. Ao fundo, ao longe, era possível ver o alto do mar e, com algum esforço, ouvir seus rumores. Era da goiabeira que Cora conversava com o pessegueiro; talvez devesse ter ficado mais próxima dele, por vezes pensava, mas ele, em seu caule alinhado, não lhe oferecia o colo de que precisava.

Por anos, esse quintal foi seu jardim secreto. Um refúgio. Foi ali que começou a se reconhecer enquanto gente que pensa e, quando um dia sucumbiu à obstinação das perguntas sem respostas, às perguntas que se multiplicavam e às respostas que não surgiam, o pomar inteiro acometeu-se da doença do pessegueiro e morreu.

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