15.07.2017 – 21:30hrs – definições 

Metodologia: a cada tema, 20 minutos de escrita.
Definição dos temas:
(i) I-Ching
(ii) Cozinha
(iii) Tarot
(iv) Mochila
(v) Imagem 1
(vi) Pose
(vii) Rua
(viii) Imagem 2

Uma garrafa de café, 2 copos d’água.

 

15.07.2017 – 22hrs – Tema I

I-Ching, imagem 53 – Desenvolvimento.

Ao I-Ching pergunta-se o quê é o hoje. Mas “quê” é denominativo de coisa, de materialização. Será que podemos chamar o hoje de algo? Ou uma fração do tempo, que é o hoje, não comporta determinações daquilo que em si contém?

Mas o oráculo nos diz que no hoje há desenvolvimento. E que seus elementos representativos são o vento e a montanha. A montanha, empilhado de rocha é, em toda sua essência, algo inerte. Ao nascer foi movimento, mas no atingimento de seu ser concluiu-se em não-movimento. O vento, por cumprimento de seu destino, é movimento. É trânsito. E é a capacidade de caber em qualquer lugar, até no entorno de uma montanha. O vento é o camaleão das formas. A montanha é ela, ostensivamente ela.

O vento, em toda sua singularidade da adaptação, é suavidade. Que não está na velocidade do sopro, mas na capacidade de continuar seu movimento sem fazer com que a montanha deixe de ser montanha. A montanha, em toda sua apatia, é quietude. Mas, em sua quietude, é presença. Aquela presença que não se pode ignorar, assim como o silêncio não pode ser ignorado. E aí reside sua força: na quietude que não pode ser ignorada.

A quietude e a suavidade são desenvolvimento, porque desenvolver-se é processo. E processos que se prestam para algo são quase que inaudíveis. Senão, não é processo, é cataclisma. Cataclismas são fissuras que podem até estarem contidas no processo, mas não o são.

O hoje, me diz o I-Ching, é desenvolvimento. Ao hoje cabe ser vento e montanha. Não-movimento e movimento. Quietude e sopro. Forma e desforma. O desenvolvimento nunca é indivisível. E, nesta disposição de elementos que se integram, encontram-se respostas não em contrários, mas em complementares.

Essa quietude suave é uma promessa de nos levar àquele lugar, desejado, mas incompreendido, de desenvolvimento. É possível que esse seja um lugar ao que nunca se chega, como a história que nunca tem fim, mas sua função de ser não é de lugar, mas de existência vento e montanha, quietude e suavidade. Tão quieto que sua presença não pode ser ignorada, tão suave quanto o sopro que não pode deixar de ser sentido.

O I-Ching, se o tivesse lido, me falaria algo do “homem superior”. Eu nunca entendi muito bem essa superioridade.

 

15.07.2017 – 22:45hrs – Tema II

Cozinha: galinha de sacos, potes de vidro

A cozinha poderia se chamar contêiner, porque é o lugar dos conténs. Praticamente tudo ali contém algo, exceto o pano de prato, que não contém nada, além de sujeira. Na cozinha de minha casa, pendurada na parede em um registro de água, há uma galinha de pano oca, bem feia, feita não para conter ovos, mas para conter sacos. Sacos de supermercado; aquele lixo que levamos de brinde quando compramos algo, e que nos serve para não precisarmos comprar sacos para conter lixo, que é o resto do que continha as compras do supermercado, que trouxemos para casa, contendo em sacos.

Contém é uma palavra muito estranha. Sua leitura parece vazia de significado, porque se refere ao conteúdo de algo alheio; o quê contém em contém? Qualquer coisa que não seu próprio conteúdo, que se esgota na referência ao conteúdo de outra coisa. Diferente da cozinha, contém não poderia ser contêiner.

As cozinhas são os lugares nas casas onde mais tem areia. Poderia ser no banheiro, depois de um dia de praia, mas não. Toda a areia da casa está contida na cozinha, em seus sem fim potes de vidro. Potes de vidro que, um dia, já foram produtos contidos nas paredes dos supermercados; que foram trazidos para casa em sacos plásticos de brinde, que viram conteúdo da galinha de pano oca pendurada na cozinha, para então conter lixo; resto das compras que trouxemos do supermercado, para, então, virar contêiner de qualquer conteúdo que contenha em casa e, nas compras, tenham contido.

Os vidros da cozinha aceitam tudo. Dispostos nas prateleiras, até parecem compor um bazar de sabores, disponíveis em seus conteúdos, que podem ser vistos através da transparência do vidro que, um dia, já foi areia.

Areia é resto de pedra que de tanto o mar bater, cansou-se de ser rocha inerte e resolveu virar areia, lançando-se à sorte do vento e migrando da costa ao interior, ou para a minha cozinha, em forma de vidro. A areia do deserto já foi rocha. É a rocha cansada que sucumbiu aos apelos de mudança do tempo e todos os elementos que, em si, contém.

A areia, em toda sua velhice, cansou-se de fincar pés e resolveu deixar-se levar. Resolveu deixar-se conter em novos lugares. E, na qualidade de vidro, deixou-se virar contêiner do que quer que seja. Assim como a galinha oca de pano, feiosa, que contém sacos, contida na parede da cozinha. Assim como minha cozinha, que é contêiner de tudo isso e até da areia que, um dia, já foi pedra.

(…)

A galinha dos sacos de polímeros, que contém todo aquele plástico que, em seu destino de lixo, só serve para conter a desintegração do mundo enquanto contêiner maior: que contém os sacos, a galinha, a areia que pode ser vidro, a cozinha que é contêiner, o ‘contém’ que não tem significado próprio. Esse mundo, que está contido nessa coisa maior, o Universo, que não sabemos ao certo o que é, e nem se apenas contém, ou se está, também, contido.

 

15.07.2017 – 23:20hrs – Tema III

Tarot. Duas cartas: (i) O Experienciar; (ii) Sofrimento

Ontem alguém me falava da mediocridade. E que o início do processo para sair dessa mediocridade é reconhecê-la. Reconhecermo-nos enquanto seres humanos medíocres que somos é doído. Encararmos essa verdade e buscarmos sair deste fundo do poço, que é onde mora a mediocridade, é experienciar o sofrimento.

O ato de sentir qualquer emoção é experienciar uma parcela deste sem fim de experiências que o mundo pode nos proporcionar. Por vezes, por saber que este número é infinito, temos pressa em sentir, sentir e sentir. Perseguindo uma ilusão, como se, de alguma forma, fosse possível atingir o infinito. E por não atingi-lo, voltamos à mediocridade desta ânsia em esgotar as possibilidades, sem perceber o experienciar. E, em looping, voltamos ao sofrimento.

Mas sofrer é irremediável. Não há atalho no caminho de tornar-se menos medíocre. Sofrer é dor. Mas, se por um lado, é uma miséria, por outro permite a criação. E há, inclusive, quem sinta prazer na dor. Eu mesma aprecio uma dor muscular. Mas essa é uma dor física, apenas dói. O que faz sofrer é a dor da alma, que flagela os pensamentos. Que faz doer os pensamentos. Mas, que de tanto doer, permite que dali algo se crie. É por isso que outro dia eu lhe dizia: sofra um pouco, pegue emprestado algum flagelo, vai ajudar-lhe na decisão.

Agora compreendo um pouco um convite que me foi feito para sofrer juntos. Experienciar o sofrimento em conjunto pode ser um convite para compartilhar o processo de tornar-se menos medíocre. Ao fim, é um lindo pedido de ajuda porque é, também, em toda sua crudez, uma mão que se estende.

Experienciar o sofrimento é necessário para experienciar felicidade. Gostaria de fazer piada desta frase cafona, mas não consigo.

Todos sofremos, poucos experienciamos o sofrimento. Porque não queremos reconhecer que podemos habitar este quarto escuro e feio, mas necessário para sair da mediocridade. Ao fim, parece mais fácil e feliz ignorar a mediocridade. Será que algum dia, ao medíocre, a feiura contida no engano da beleza vem à consciência?

O experienciar é sem fim, mas nunca igual. Cada sofrimento dialoga com uma parcela diferente de toda esta mediocridade que nos assola, neste rebanho de condenados que somos. Nem o fim do experienciar põe fim à mediocridade – este fantasma independe de mentes e corpos, que circula dentre nós.

Que texto horrível.

 

15.07.2017 – 23:50hrs – Tema IV

Mochila: bottom Yoko Ono

Logo que vi a imagem, não a reconheci. Pensei que fosse uma dessas fotos contemporâneas de texturas, que não se pode identificar de quê. Mas, depois de meio minuto, percebi que era o símbolo daquilo que me define enquanto ser humano socialmente identificado por um gênero. Era a imagem de uma buceta. Como é possível ter demorado tanto a perceber? Seria alguma falta de familiaridade ou total ausência de expectativa em ver aquilo estampado em um bottom?

Essa ausência de expectativa, mas que no fundo é alguma expectativa de não enxergar aquilo, chega a me irritar. Como me livro desta caretice no olhar? Porque não enxergar uma vagina que poderia, inclusive, ser minha?

As primeiras três letras da palavra vagina coincidem com as da palavra vagueza. Vago é isto o que estou fazendo, nesse processo de divagação que faz concluir mediocremente que não tenho muito a dizer sobre uma vagina.

Eu tenho isso de achar que, em algum lugar do mundo, há alguém que não faço ideia de quem seja e com quem, possivelmente, não poderia sequer me comunicar, mas que a mim se conecta, neste instante, pelo falo de, simultaneamente, estarmos pensando nas mesmas questões. Apesar da infinitude de questionamentos, há coincidências. E, nesta fração, há (estou cansada e as palavras me fogem) conexão.

Assim, de alguma forma, estou conectada a todos nesta Terra, dentro desta rede invisível de pensamentos compartilhados. Há confluência nas ideias. Não fosse assim, o mundo jamais experienciaria mudanças. É preciso que haja uma força de pensamentos que apontem para um mesmo lugar, para que o mundo possa ir. Para que possa caminhar em uma música, e não ficar estagnado em um ruído.

Essas coincidências do pensar, e conexões, talvez sejam menos importantes para os indivíduos que se conectam, e mais importantes para o mundo que, nessas vibrações, encontra sua frequência de continuar existindo.

O mundo é o que existe e, nós, existimos no mundo. O universo é o que existe e, o mundo, existe no universo. Mas será que o conceito de mundo se confunde com o de planeta? O mundo é tudo isso, que vemos e não vemos. O revelado e o secreto. Existir no mundo é, também, existir no universo?

Os mundos que crio neste mundo são, igualmente, parcelas de mundo. Nesse processo de criação, o mundo é infinito. Há sempre algo mais a caber. Há sempre uma nova confluência de pensamentos que pode acontecer. Há sempre uma nova frequência que leva o mundo a esta sina de continuar existindo, sem encontrar seu fim. É a história da vida no mundo – este processo inventivo.

 

16.07.2017 – 00:20hrs – Tema V

Imagem I: Esperança 2, Gustav Klimt

Este é o quadro do mês de junho, no calendário. Foi por causa dele que cismei em tomar pílula do dia seguinte. No dia seguinte, no calendário, estava lá, a Esperança 2 de Klimt: uma mulher grávida. Para mim, uma desesperança. Não hesitei e tomei aquele comprimido maligno. Seria melhor ter ouvido Secos e Molhados; “mulher barriguda, tomara que não!”.

Uma mulher grávida é como uma árvore na primavera, quando começa a oferecer frutos. Ali há uma semente que brotou e começa a cumprir seu destino de transformar-se em vida. É uma promessa de alegria. Ou uma esperança, como prefere Klimt.

Alguém me disse que a sensação do parto para o recém-nascido, a saída do útero, é a primeira experiência de abandono. Talvez seja este o motivo do choro humano ao nascer. Pelo visto o ato de nascer já é uma experiência de sofrimento. E assim segue pela vida. Talvez por isso esta obstinação intelectual, de ser social, em tentar buscar a felicidade.

A felicidade é um sentimento refinado. O homem primitivo não pensa em ser feliz, ele apenas existe como objeto de prazer ou desprazer. Mas então, como o recém-nascido, o mais primitivo dos homens, pode sofrer a experiência do abandono? Talvez porque este recém-nascido em toda sua inexistência de intelecto não seja assim tão primitivo. E primitiva seja esta busca pela felicidade, sem ao menos sabermos do que se trata.

Mas que grande incongruência estou eu a escrever. Deve ser o sono. O avançado das horas, esta sina por encontrar a escrita em lugares ainda não visitados. Este exercício de se arriscar a escrever sobre qualquer coisa, a despeito da pobreza referencial.

Hoje mesmo falávamos sobre o belo e sua mutação; função de referências colecionadas. Que o padrão é referência única e, em sua unidade, imposta; enquanto que o belo, em sua experiência estética é, na verdade, empatia às incontáveis referências possíveis neste mundo que cumpre seu destino de continuar existindo. E que as referências diferentes fazem com que diferentes vejam o belo em diferentes; e que haja real atenção àquilo que o outro lhe diz que é belo, com a curiosidade em acessar, por experiência mediata, os referenciais estéticos do outro. Ver pelos olhos do outro e compreender o belo que se enxerga.

Neste quadro de Klimt, ao fundo, vejo um céu estrelado. Mas certamente há quem veja outra coisa, ou outro céu. E eu gostaria de ouvir a experiência de visão do outro, e tentar entendê-la, para, talvez, compreender meu próprio processo de apreciação estética. Referências. É uma questão de empatia às referências que estão aí, livres no mundo, postas em vitrines, escondida em latrinas, em um apelo de apropriação.

Não sei por quê diabos, agora, à minha cabeça me vem a cena do filme Lola rennt, quando Manni, em um processo de paranoia, começa a delirar sobre como Lola reagiria caso ele morresse e, então, ela responde: – Manni, du bist aber nicht gestorben. Há quem ache mórbido, eu acho belo.

 

16.07.2017 – 00:45hrs – Tema VI

Poses: de Xuxa e de Marla Singer

Essa coisa da pose, a expressão corporal, é muito curiosa. É falar em gestos que não são gestos. Imagine se ao invés de nomes falados, as pessoas tivessem poses. Só seria possível ouvir a um chamado com os olhos. A pose permitiria gritar ao surdo. E, talvez, estivéssemos mais em forma, pois, a cada chamado, teríamos que nos mover. Ou, por preguiça, não chamaríamos a ninguém e viveríamos solitários.

É cada pose que não se sabe o motivo de existir, nem a estética. Encostar a mão em um dos pés, por exemplo, oferendo a bunda à lua, pode tanto ser um alongamento quanto um oferecimento de bunda. É uma pose estranha. Esquisita. Porque oferecer a bunda é esquisito, apesar de existente nos imaginários. Olhe eu aqui, de novo, com minha caretice censora, achando esquisito oferecer a bunda, essas duas colinas de ossos, músculos e carne, que muitos querem deglutir.

Das poses, a que mais gostaria de fazer é a de fumar um cigarro expressando todo o meu desdém ao coletivo. Só não o faço porque não fumo, mas o desprezo pela sociedade é real. Pense no cigarro, essa bomba relógio que se queima a prestações e que comunica a total falta de cuidado consigo e com o mundo ao redor. O exemplo mais concreto de externalidade negativa que não é externalidade, porque não traz beneficio algum a quem a gera, a não ser o hedonismo em ceder ao ímpeto de morte em busca de algum prazer.

Mas, gostava eu de ser fumante e neste gesto tão breve, tão simples, expressar toda essa minha repulsa e arrogância. Também para poder me iludir que existe algo que possa me fazer pensar melhor a cada trago. Foi assim que criei o hábito dos cigarros imaginários para momentos de grandes decisões, como tomar um café com leite ou puro. Acendo um cigarro e, neste momento de contemplação, decido-me em um movimento poético por dar importância a decisões pequenas e, com isso, iludir-me que me salvo da pequenez de minha existência. A cada cigarro, um novo significado vazio. É por isso que gosto de estar com fumantes, para, em conjunto, partilharmos este momento de contemplação.

Além de gerar empregos precários nas plantações de tabaco, dar dinheiro a publicitários, permitir a exploração de um duopólio mundial, poluir, feder, gerar enfermidades e permitir a contemplação, o cigarro traz, em seus poucos centímetros de combustão, todo este glamour de poder simplesmente fumar um cigarro, em algum lugar, sem precisar admitir que está sozinho.

O cigarro resolveu, no hábito, muitas inseguranças do ser-humano, nessa promessa tosca de glamour e companhia. Mas, ainda assim, gostava eu de acender uma parcela da bomba.

 

16.07.2017 – 01:25hrs – Tema VII

Rua: fogos de artifício

A primeira vez em eu ouvi um tiro, achei que eram fogos de artifício. Hoje ouço fogos e me pergunto se são tiros. A diferença teórica dos sons eu sei, mas, ainda assim, tenho dificuldades de diferenciar ao ouvi-los.

Eu sempre achei lindos os fogos de artifício, mas nunca gostei do barulho. Explosões não são agradáveis e, quando elas ocorrem, nunca estou preparada. Mas, se não explodissem, não seriam fogos de artifício. O artifício está na explosão. Foi com os fogos que aprendi o significado desta palavra, artifício. Não é uma palavra que uso muito, mas acho-a uma boa palavra. Poderia usá-la mais.

O fogo nunca foi algo que me chamou atenção, até que um dia alguém me falou que via beleza. Então passei a observá-lo. As cores das chamas. O amarelo, o vermelho, o azul. É bonito, mas ainda assim não me causa impressão. O que me diz algo, contudo, é a capacidade de geração de calor. O processo de combustão. Acho curioso que meu corpo fique tantas vezes tão quente, sem pegar fogo. O processo é outro, o efeito similar.

Fazia tempo que não sentia tanto calor, só pelo ato de pensar. Isso me ocorreu esses dias. Tive febre. Uma febre inútil. Um pensamento inútil. Mas o calor existiu. Incessantemente. Pensei que fosse me transformar em fogueira, teria sido útil neste mês de festa julina. Olha eu, aqui, novamente, colocando-me a serviço da utilidade, esta inutilidade.

O conceito de utilidade sim, essa ficção inútil, poderia virar fogueira e cumprir seu destino de existir enquanto palavra, servindo para alguma coisa. Será que em dez anos o significado dessa palavra será o mesmo? Acho doentio que exista uma ideologia baseada no radical desta palavra, e que não serve para nada enquanto ideia.

Assim, nessa minha rebeldia contra os significados, pressupostos e importâncias ditadas, seria muito feliz se alguém me dissesse que sou uma inútil. Deu até uma saudade dela e de nossas utilidades inúteis que só geraram tristeza cumprindo, isso sim, sua razão de existir enquanto coisa útil, geradora de qualquer merda inútil.

Fogos! Acendam fogos! Tampem os ouvidos, abram os olhos.

Qual a utilidade deste sono intenso que sinto agora, além de levar-me para a cama? Espero que não seja fazer-me sonhar.

 

16.07.2017 – 02:00hrs – Tema VIII

Imagem I-Ching: Duração (Incitar – trovão; Suavidade – vento)

Duração é uma daquelas todas palavras que se usa sem qualquer precisão de significado. Quanto tempo dura a duração? O oráculo me diz que duração é vento e trovão. Mas vento e trovão é prelúdio de tempestade. Lembro-me do Castelo Rá-Tim-Bum; quando o Dr. Vitor ficava zangado ele bradava: “ventos e trovões”. E tudo acontecia menos durar.

Mas, no oráculo chinês, o trovão é o incitar, enquanto o vento é a suavidade. É uma bela dupla. Dinâmica. Sem promessa de tédio. O trovão a incitar, o vento a suavizar. A duração a durar. É preciso crer nessa dinâmica para durar, entretanto. Para a crença de duração durar. Quanto tempo demora o durar? A sucessão de durares; uma vida.

Esta escrita vai durar vinte minutos, mas o anel da Lara ao bater na porcelana parece antecipar o som do alarme e me faz crer que durará menos, ou que os vinte minutos encolheram. Então a duração não é linear. Porque sequer sei mais o significado de vinte minutos. E o simples sonar do alarme não significa que esta escrita não continuará a durar. Pode ser apenas uma interferência, e a escrita poderá durar para sempre. Mas sabe-se lá o que significa sempre.

Eu, para continuar durando nestes vinte minutos, nesta função de ser que transforma pensamentos em códigos que formam palavras, componho frases inseridas em um texto maior, aquele que nunca acaba. Preciso ter novos lugares para ir, nesta busca infindável pela história da vida no mundo.

Talvez o lugar que eu deva ir agora esteja em meus sonhos, pois sinto um sono incontrolável. Uma vontade linda de cerrar os olhos e entregar o corpo à regeneração do descanso. Para que possa continuar indo a novos (outros) lugares. Preciso cerrar meus olhos, neste lugar de tranquilidade terrena, até o dia de amanhã.

Quanto tempo mais durará esta escrita, até que dê lugar à duração de meu sono? Quanto tempo mais meus olhos durarão abertos, nesta insistência em cumprir o tempo determinado pelo método? Quanto tempo mais poderá minha mão traduzir o que se passa em meu cérebro cansado? Quantos tempos durarão os minutos que faltam até o alarme do relógio sonar? Quanto tempo durará até eu estar em outro lugar? Quero olhar o relógio, mas não quero olhar o relógio – para não determinar quanto tempo ainda vai durar. Mas estou cansada.

Outro dia perguntava quanto tempo durará esta droga. Acho que já não dura mais. Agora, a única duração está nos últimos segundos do relógio, que me permitirão ir a outro lugar de duração.

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