Em 1895, antes mesmo da relatividade restrita de Einstein, um escritor britânico chamado Herbert George Wells, biólogo, aluno de T. H. Huxley – o “buldogue de Darwin” e avô de Adouls Huxley –, propôs em um romance o entendimento do tempo enquanto dimensão. Ele dizia que para existir, um objeto necessitaria de duração.

– Parece-me claro – disse o Viajante no Tempo – que qualquer objeto real deve se estender em quatro direções: ele deve ter Altura, Largura, Espessura e… Duração. Mas devido a uma limitação natural dos nossos sentidos, que já explicarei, temos uma tendência a desprezar este último aspecto. Existem na verdade quatro dimensões, três que constituem os três planos do Espaço, e uma dimensão adicional, o Tempo. Temos, no entanto, uma tendência que nos faz estabelecer uma distinção irreal entre as três primeiras dimensões e a última, porque nossa consciência se move de maneira intermitente em uma direção só, ao longo desta última, do começo ao fim de nossas vidas. (Wells, H. G. [1895] A Máquina do Tempo. RJ: Objetiva, 2010. p. 18)

Duração. Fala-se em duração. Algo que parece muito simples, muito óbvio e, no entanto, sequer consigo definir. Quanto tempo dura a duração? Qual é o tempo de existência da realidade no mundo? Existe realidade antes do tempo?

Mais intrigante que o próprio tempo, é o passar do tempo e esta tríade “passado, presente e futuro”.  Eu penso, penso e penso, e chego a entender que a única conclusão possível seria a de que apenas o passado e o futuro existem. Porque o presente já passou, já passou, já passou, já passou (…). Assim, pensando em Wells, se o presente fosse um cubo, não seria um objeto real, porque não se estende em quatro direções. Não dura.

Mas então penso mais um pouco, e reflito que minha escala de presente talvez seja demasiado reduzida. E aí chego em Todorov, que me fala da perpetuação do presente em nossa finita existência.

Esta é a contradição específica da condição humana: nossa consciência e nossos desejos habitam o presente perpétuo e se movem no infinito; nossa existência, esta se passa no tempo e tem apenas uma extensão finita. (Todorov. [1995] A vida em comum: ensaio de antropologia geral. São Paulo: Unesp, 2013. p. 210)

Compreendo que dificilmente chegarei a qualquer conclusão. Mas formulo novas questões, na ilusão concreta de que estou cumprindo minha sina. E, então, sigo.

É preciso tempo para existir. E desde quando a existência existe? Quanto de tempo se precisa para existir? Posso dizer que a vida que existe é narrada e, enquanto narrativa, é uma história organizada em um enredo que evolui no espaço e tempo. Mas o enredo é vivido, ou inventado, ou inventado e vivido?

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Os dias estão assim, relativos. São seis meses de vida espremidos a cada semana, que concretizam o experimento mais genuíno de não linearidade do tempo que já vivi. Talvez seja um descompasso no enredo que tenho inventado, vivido, ou inventado e vivido. Talvez não. Mas “tamo aí”…

Nessa tentativa de compreensão, os dias são dedicados à anotação do que se vive, nessa ou naquela dimensão. À anotação do que cabe dentro do tempo. Esse tempo que cabe dentro e fora de mim, simultaneamente – porque minha pele não é demarcação de tempo, nem de espaço, nem de coisa alguma. Que minha pele não é fronteira. Transborda.

A coletânea de escritos tem funcionalidade similar a de uma cápsula do tempo. Provavelmente com informações de pouca utilidade, mas, ainda assim, mantêm-se a rotina e tentativa de mera catalogação de eventos.

Chego a algum lugar próximo daquele que Caymmi descrevia a Jorge:

O tempo que tenho mal chega para viver: (…) não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. (Carta de Dorival Caymmi a Jorge Amado)

E então eu me pergunto se essa falta de tempo seria por desperdício, por não saber me localizar no tempo. Mas o que significa desperdício? Fico a pensar se o tempo se encaixa mesmo nessa categoria de bem escasso que pode ser desperdiçado. Ainda não cheguei a qualquer conclusão (nenhuma surpresa!). Mas adoro desperdiçar esse tanto de tempo que tenho e não tenho.

I am still confabulating to write whatever that has no concrete meaning (30.03

Entre 1968 e 1979, On Kawara dedicou parte de seu tempo (em desperdício ou não) a enviar para seus amigos telegramas com esta mensagem:

 

Foram 12 anos staying alive. Pode-se identificar algum fastio. Ou perseverança. Não se sabe. Me pergunto o quê o teria motivado a empregar seu tempo na atividade de escrever tantas vezes as mesmas palavras. Também não dá para saber. Mas penso pode ser uma ironia com a duração. Essa duração, que faz com que existamos e continuemos a existir, mesmo sem compreender quanto tempo dura a duração. Essa duração, que mesmo sem conseguir definir, receamos tão fortemente seu fim.

Dois personagens de Romain Gary mantêm, no escuro, este diálogo: “- Aline. – Sim? – De que todos temos medo? – De que isto não dure”. (Gary. L’Angoisse du roi Salomon, 1979. apud. Todorov. [1995], 2013. p. 211)

O tempo também pode ser percebido como a alternância entre dias e noites.

‘Si no luciera el sol,  sería de noche.’  Heráclito de Éfeso (Fonte: PLUTARCO, Sobre si es más útil el agua o el fuego 7)

Mas a diferença entre dias e noites parece ser uma mera convenção – uma alegoria que esclarece a renovação constante da matéria única dos dias e noites: o tempo; que se reproduz sem se repetir. A duração é uma constância de renovação. A cada instante, a existência está a se renovar. Talvez isso seja durar.

‘[…] aunque no distinguía entre el día y la noche. En realidad, se trata de una sola cosa.’ Heráclito de Éfeso (Fonte: HIPÓLITO, Refutación, 9, 10, 2)

Janis Joplin parece concordar com Heráclito.

(…) If you got it today you don’t want it tomorrow, man, cause you don’t need it, cause as a matter of fact, as we discovered in the train, tomorrow never happens, it’s all the same fucking day, man. (Janis Joplin ao vivo no Festival Express, Calgary, Alberta, em 4 de julho de 1970.)

E seus entendimentos sobre o tempo tornam a aparecer:

Time keeps movin’ on,
Friends they turn away.
I keep movin’ on
But I never found out why
I keep pushing so hard the dream,
I keep tryin’ to make it right
Through another lonely day, whoaa.
(Janis Joplin, Kozmic Blues, 1969)

O tempo, essa coisa estranha, que dá espaço para que o movimento exista. Essa coisa estranha, que é em si um movimento, cuja trajetória não é materialmente alcançada pelos olhos humanos, apenas sua representação. Que de tão abstrata, ora acho que compreendo, ora tenho absoluta certeza que não entendo e jamais entenderei.

A única real, mas também efêmera compreensão quanto ao tempo, é aceita por mim não em termos de ciência, mas de dogma. O tempo muda, o tempo cura, o tempo dá tempo ao tempo e tudo perde a importância que parecia ter, em virtude da imperatividade do tempo.

As pessoas e as coisas, no tempo e no espaço, estão assim, em um movimento regular, em uma relação constante. As pessoas e as coisas, no tempo e no espaço.

E assim é o caminhar do mundo:

 (…) uma obra que é de todos nós e de mais alguém, que é o tempo. O verdadeiro grande alquimista. Aquele que realmente transforma tudo. Gilberto Gil, ao vivo na USP em 1973. 

Mas Andy Warhol pensa de forma distinta. Sempre estão a dizer que o tempo muda tudo – ele diz –, mas, em verdade, quem muda as coisas somos nós mesmos. O tempo é tão somente o que nos permite mudar.

E Rousseau não concorda com essa compreensão, de que a trajetória imbatível do tempo traz beleza aos olhos humanos. O filósofo entende que a felicidade está contida exatamente no estado de não percepção do tempo, ou seja, na sensação de aparente constância do presente.

Mas se há um estado em que a alma encontra um apoio bastante sólido para descansar inteiramente e reunir todo o seu ser, sem precisar lembrar o passado nem avançar para o futuro; em que o tempo nada é para ela, em que o presente dura sempre sem contudo marcar sua duração e sem nenhum traço de continuidade, sem nenhum outro sentimento de privação nem de alegria, de prazer nem de dor, de desejo nem de temor, a não ser o de nossa existência e em que esse único sentimento possa preenchê‐la completamente, enquanto este estado dura, aquele que o vive pode ser chamado feliz, não de uma felicidade imperfeita, pobre e relativa, como a que se encontra nos prazeres da vida, mas de uma felicidade suficiente, perfeita e plena, que não deixa na alma nenhum vazio que sinta a necessidade de preencher. Tal foi o estado em que me encontrei muitas vezes na ilha de St. Pierre, em meus devaneios solitários, seja deitado em um barco, que deixava vagar ao sabor da água, seja sentado sobre as margens do lago agitado, seja em outro lugar, à margem de um belo rio ou de um regato a murmurar sobre o cascalho. (ROUSSEAU, Os Devaneios do Caminhante Solitário).

Caetano talvez tenha tido um encontro com a felicidade rousseauniana. Ele compreende que o tempo pode parecer contínuo, e que essa continuidade tem que ver com a eterna dúvida quanto à sua matéria – talvez por isso possa acreditar em um outro tipo de vínculo (Caetano Veloso, Oração ao Tempo, 1979).

 

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Mas depois de dedicar algumas tantas horas a pensar o tempo, seus significados e possibilidades, vejo-me diante do esquecimento de uma assunção elementar:

\\\\\\\/\/\/\\\\\\/\/\/\/\/\/\\//////\\\\\\///\/\/\//\/\/\// o tempo não é linear.

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E, na literatura, a possibilidade do tempo fictício.

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Andy Warhol, o imediatista, conseguiu de forma surpreendentemente clara definir o pensamento sobre o tempo:

I try to think of what time is and all I can think is . . . “Time is time was.”

É uma frase que me orgulharia de tê-la escrito.

 

 

 

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