Tem vezes que acordamos de um sonho tão real, que parece que estávamos vivendo outra vida no presentear do sono. Noite dessas, Lucas estava na PUC, com uma folha em mãos, onde tinha uma grade horária. E em um desses horários escrito: interpretação literária – instituto de psicologia. Ele se dirigia ao departamento, andando por entre as mesas organizadas em fileiras onde livros eram oferecidos a preços módicos quando, de repente, na direção contrária, vinha seu pai, aquele senhor bonito, inteligente, acadêmico da engenharia, comunista, crítico de tudo, abrindo um sorriso cínico e perguntando:

– O que você está fazendo aqui?

– Tô indo assistir a uma palestra na psicologia. – disse Lucas, timidamente.

– Você gosta da PUC né, Lucas? – respondeu o pai, em tom jocoso como quem diz: você gosta de toda essa burguesia carioca, não é mesmo?!

O fato de Lucas se importar por literatura, ou mesmo estar procurando respostas interpretativas na psicologia, não era uma questão para Antônio. Que um senhor prático, objetivo, contrário a qualquer demonstração de futilidade; adjetivo que ele conferia a tudo o que não fosse estritamente necessário à sobrevivência. E nos pensamentos de Lucas, sua figura era fútil aos olhos do pai e de tantos outros.

Por isso, sempre se esforçou para fazer o que lhe diziam para fazer. Lucas era um ser responsável – irritantemente responsável. Ajudou em casa, porque lhe disseram que era seu dever. Cursou direito, porque lhe disseram que havia que cursar. Namorou Caroline, porque lhe disseram que havia que namorar. Trabalhou, porque havia chegado a hora de trabalhar. Jogava futebol aos domingos, porque seus amigos precisavam que alguém ficasse no gol. Lucas fazia o que tinha de fazer, o que não significava que o fazia feliz. Havia diversas frustrações. No entanto, não conseguia expressá-las, porque lhe disseram que era melhor se calar: não se reclama da vida de barriga cheia!

Lucas nunca foi um homem de decisão. Era-lhe mais fácil assumir como propósito seu o que os outros lhe disseram ser seu propósito.

A covardia nunca mostra as caras, ela vem sozinha, silenciosa como um gato, taciturna e, à menor distração, se instala em algum lugar não identificado, onde não se pode percebê-la, tampouco achá-la. Mas ela está ali, agindo, diuturnamente. E pode até ser que nunca seja notada. Ou, que algum dia, apareça com uma cara esbranquiçada, cadavérica, terrível; causando enorme asco à percepção de que estava ali por tanto tempo, no lado de dentro. A covardia é ardil. Mesmo descoberta, é difícil livrar-se. É como o musgo na umidade. Pode retirá-lo, mas a umidade convida-o a retornar. Então é preciso acabar com a umidade. E não é fácil.

Lucas acordou daquele sonho saindo do departamento de psicologia e indo diretamente ao vão entre as quatro paredes que compõe seu quarto. Olhou ao seu redor. E mapeou: aquele livro na estante que não tem coragem de ler; aquele conto no caderno sobre a mesa, que não se permite terminar; as páginas do artigo que não consegue ler; o exame médico que não arrisca abrir; as palavras que não consegue lembrar; os sentimentos que não consegue dizer e sequer nomear; as histórias que teme em contar.

E Lucas percebeu o lado de dentro de si, que teima em preservar. Porque é apenas seu. Covardemente seu. Seu espaço de prazer, conversa, invenção e covardia. Sua intimidade sagrada. A única parte de si onde a escolha é somente sua. E por ser sua, não a mostra a mais ninguém.

Lucas levantou-se aterrorizado. Foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e quando se olhou no espelho, viu aquele bicho pálido e fraco, temeroso de assumir-se. Escondeu a face na toalha e chorou. Mas, enxugando o rosto, olhou-se novamente no espelho, com os olhos vermelhos e raivosos e disse para si: estou de saco cheio!

Eu simplesmente amo essa expressão! Adoro quando alguém fala que está de saco cheio, que é o primeiro passo para algo acontecer. É o anúncio da mudança, que ainda não se sabe qual será. Seja o que for, é o desrespeito à inércia!

Então Lucas voltou para o quarto, se vestiu como nunca tinha ousado; tomou café com o estômago vazio sob o olhar reprovador de sua mãe; disse ao pai que estava indo para uma palestra de interpretação literária no departamento de psicologia da PUC e, intimamente, o mandou à merda. Mas saiu de casa, entrou no metrô e foi trabalhar. Ensaiou mandar o chefe também à merda, mas pensando nos boletos para pagar, postergou a cena para outro dia.

Foi ao trabalho, mas não trabalhou. Passou o dia planejando sua vida, pensando no que iria fazer. Melhor, no que gostaria de fazer. Mas não chegou a conclusão alguma. É muito difícil escolher o que se quer. Talvez não suportasse carregar o peso dessa responsabilidade. Estava completamente perdido. Não sabia para onde ir. E percebeu que não ser covarde exige saber o que se quer e assumir. Exige poder de decisão e responsabilidade não sobre aquilo que lhe disseram que fizesse, mas sobre aquilo que escolheu fazer. E quem disse que é fácil escolher? A possibilidade é um privilégio e um fardo – é como a maçã do paraíso, que se pode optar por comê-la, ou não. Não ser covarde exige coragem!

 

Lucas é covarde e eu o compreendo. Lucas sou eu. Não queria.

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