Ao que tudo indicava, o dia de hoje seria um tédio só. Uma tristeza existencial.

 

Em alguma das ruas de Copacabana existe o número 591. Mas não sei qual. Não é na Barata Ribeiro, nem na Nossa Senhora de Copacabana, tampouco na Siqueira Campos.

Já estava vinte minutos atrasada para o pneumologista, quando descobri que na rua em que estava não existia o número 591, onde supostamente estaria o consultório – estava tossindo havia um mês e, na minha hipocondria, cheguei até a cogitar tuberculose. Já estava na altura do número 593 e nem sinal do 591. Fui, voltei, fui de novo e nada. Como pode, me perguntava. E logicamente podia, pois estava na rua errada.

Então, sem muito pensar, fui à rua paralela, em busca de meu número. Andei mais um bocado, mas não o encontrei. Cadê? Não pode ser… Onde está? – pensava comigo mesma. Foi quando me dei conta de que, na verdade, estava na Nossa Senhora e não na Rua Siqueira Campos, como deveria. Estava de novo na rua errada e me perguntava como era possível. Como pode? Eu conheço essas ruas, me repetia.

Quando finalmente cheguei à Siqueira Campos, na esquina, descobri que estava no número 50, distante do 591. A esta altura já tinha quarenta minutos de atraso e, por isso, entrei em um táxi. E o senhor taxista me disse: olha, moça, não conheço esse número não, mas deve ser lá em cima. Chegamos ao fim da rua e o número do último prédio era 271. 271? DOIS SETE UM?! Meu Deus! Não pode! Sem entender nada, pedi ao motorista que encostasse o carro e liguei para o escritório.

– Oi, eu tenho uma consulta. Estou atrasada, desculpe. Mas não encontro o número 591. Estou na Siqueira Campos, mas esse número não existe. – disse rapidamente, sem mesmo esperar o fim do “boa tarde” que a pessoa me desejava.

– É. Não existe. – disse a voz do outro lado da linha.

Não existe? Como assim não existe? Será que é um prédio escondido? Um mundo paralelo? Algo que só os inteligentes podem ver? Será que ela vai dizer que encontre a passagem secreta? Talvez tenha que entrar em um bueiro. Como pode? Tudo isso se passava por minha cabeça em atropelos, quando a voz completou:

– Não existe porque não é 591, é 59.

Então desliguei o telefone sem mesmo agradecer e pedi ao taxista que voltasse ao ponto de partida. Já estava com 1 hora de atraso. Logo eu, o coelho da Alice!

Finalmente cheguei à sala 601, mas imediatamente antes de entrar me ocorreu que a antessala de um pneumologista não fosse o melhor lugar para estar. Várias pessoas com doenças contagiosas, tossindo, vírus, bactérias, etc. Entrei torcendo para que estivesse vazia, mas ao abrir a porta, me deparei com a fila do SUS.

– Quanta gente aqui, né?! – meus lábios proferiram em desobediência ao meu cérebro, que recomendava que respirasse o mínimo possível.

A secretária, que jogava candy crush, me respondeu sem tirar os olhos da tela do computador:

– É. Tem bastante gente. Carteirinha do plano e identidade!

A sala fedia a cigarro, acho que ela era fumante; ou talvez o médico(?). Era realmente tudo o que esperava de um consultório de pneumologia, mas ao contrário!

Sentei-me para procurar a carteira na bolsa e, para a minha triste surpresa, ao levantar o olhar, me deparei com algo surpreendente, cujo mau gosto estético é difícil expressar: era um Romero Britto. Um Romero Britto! Não entendia como as coisas tinham chegado àquele nível de estranheza. E só conseguia me questionar se estaria no 591, que era 59 e que, ao fim, era um outro mundo. Mas quando será que cheguei aqui? Será que foi ao entrar no metrô, pensava. Tudo muito bizarro.

Além do quadro sofrível, a moldura era de fazer os olhos verterem sangue. Ao lado, na televisão, um blockbuster dublado. Era tudo demais pra mim. Estava prestes a cair no choro, quando ouvi meu nome.

– Isabele, pode entrar.

É Izabel!, pretendia corrigir. Mas apenas levantei-me e entrei na sala do médico de forma triunfal: tossindo.

No consultório, por sorte, nenhum Romero Britto. E após 5 minutos de conversa eu já tinha receita para um antibiótico, um anti-inflamatório, um xarope com antialérgico, além de um pedido de radiografia. Será que com mais 2 minutos de conversa eu consigo a receita para o rivotril, também? Questionava-me, projetando os próximos passos. Mas antes que pudesse pôr o plano em prática, o médico me dispensou e a secretária já gritava o nome do paciente seguinte.

 

Ao sair do prédio, busquei certificar-me se já havia retornado ao mundo que costumo habitar, tentando identificar as ruas. Tudo havia voltado ao normal. Inclusive o tédio.

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