Eu tinha recém feito 5 anos quando minha bisavó, que morava em Moscou, foi nos visitar em Joinville, no sul do país, em momento próximo ao nascimento do meu primeiro irmão, quem eu ansiosamente aguardava. É provável que por isso eu tenha tantas recordações dessa época.

A babushka permaneceu conosco durante algum tempo e, dias antes do nascimento – que ocorreu numa noite em que minha mãe tomava chá de colherinha para tentar suportar as dores -, fomos passear no litoral catarinense.

Nessa época, frequentemente íamos à praia, muitas vezes para aquelas mais desertas, que para chegar tínhamos que passar por estradas ermas e não asfaltadas. Eu adorava aqueles passeios, principalmente os horizontes de mato que podia assistir pela janela do banco traseiro do carro. Ainda há alguns caminhos que não faço ideia de quando passei e onde eram, mas que permanecem na minha memória.

Desta vez com minha bisavó, após passearmos na praia, almoçarmos peixe fresco e cochilarmos na grama sob a sombra de uma árvore tomamos o caminho de volta para casa. Principalmente porque minha mãe estava grávida e minha bisavó era uma bisavó.

No caminho, passamos por esta casa térrea, de terreno amplo e repleto de árvores, algumas delas carregadas de tangerinas, muros baixos, localizada em uma ruela não asfaltada. Estava fechada. Parecia não ter ninguém em casa. Mas as tangerinas estavam ali, em abundância. Paramos, então, para colher algumas.

Minha bisavó tinha uma bolsa de palha grande, com duas florezinhas pregadas na palha, que esvaziou para auxiliar na colheita.

O então marido de minha mãe saiu do carro e retornou com a bolsa transbordando aqueles delicados frutos, tão cítricos e deliciosos que o sabor procuro até hoje. Aquele perfume distinto, que fecho os olhos e posso sentir, a cor laranja, aquele formato pequeno-arredondado e a delicada pele. Frutificou-me felicidade e memória.

Ainda hoje posso retornar àquela casa, àquele jardim, àquela rua, àquelas tangerinas. A lembrança, apesar de longínqua, é tão presente que sempre que penso em um lar, penso naquela construção térrea, nos muros baixos, no quintal amplo, verde e cítrico, na rua de terra com vizinhos distantes. Quase anseio revisitar, mas não faço ideia do paradeiro – o que é bom, pois provavelmente o reencontro seria desastroso à recordação romântica.

Sou feliz por ter a plenitude da lembrança e torço para que não se apague jamais.
Também desejo um dia poder proporcionar a alguém a chance de se apaixonar pelas tangerinas, assim como eu me apaixonei.

Neste momento acabei de chegar a São Paulo, estou parada no trânsito desta sobreposição de concreto, e só consigo me perguntar por que minha avó prefere as tangerinas dos supermercados às tangerinas do quintal. Nunca consegui convencê-la do contrário.

Um comentário sobre “Tangerinas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s