20.03.2018

É dado início a mais um outono, mas o verão teima em não ir para o outro lado do globo. Procuro uma brisa de frescor, mas não encontro. Contraditoriamente, os caquis já estão expostos nas ruas, mostrando que controlamos a germinação a despeito do clima.

É preciso muita força para trazer o oxigênio para dentro dos pulmões. O ar parece estar parado. Mas não é umidade. É o passado. Os ares que circulam por aqui são velhos, poluídos, embebidos na enfermidade da culpa. Estacado em uma tentativa de medo.

O calendário marca o início do outono, mas o tempo ainda está perdido em outros tempos.

22.03.2018 – Quadratura

Aqui o céu igualmente derrama água. São gotículas frias e, de tão leves, dançam, enquanto arrefecem os corpos de quentura que tomaram o ar. Parece que a chuva vem como que para expurgar o calor herdado do verão; para escorrer a umidade, até que o solo a absorva. Dizem que o centro da terra é muito quente, deve ser para lá que a chuva faz escorrer a quentura. Que se transforma em qualquer coisa. Provavelmente em vida, que a terra é quente e viva.

Gostava eu de escrever também em uma varanda. Mas nas metrópoles varandas são estruturas obsoletas, depósito de poluição do ar quente que circula no lado de fora da caixa. Nessas cidades que habitamos, vivemos em caixas. Trabalhamos em caixas. Transitamos de caixa a caixa. Por sorte, temos janelas.

Olhamos por janelas o dia inteiro. A cada janela, uma seguinte informação. O jornal que noticia quase-notícias, que antes mesmo que se concluam já são outra notícia. O ambiente social virtual, a funcionar como uma constante assembleia de “surdos-cegos”, mas muito falantes. A caixa de correspondência, que não nos chega mais em papel, mas nos aparece refletida na janela. A propaganda, que saiu das ruas, e entrou dentro das caixas, pela janela, e tenta constantemente nos convencer de que precisamos de algo mais.

De tanto olhar por janelas, aprendi a emoldurar o mundo. Enxergo sucessões de fotografias, que me convencem de que o tempo é uma ilusão sensível. E de que o movimento é uma ilusão ótica. Mas continuo a me servir da bebida negra, amarga, e já esfriada pela chuva, que leva a quentura ao centro da terra. Mas que não tira a quentura de mim.

27.03.2018 – Notas de contrassenso

Agora, no miolo da semana, chego no trabalho às 8h, para poder sair às 17h. E descobri algo lindo neste horário: o silêncio da ausência de seres humanos. E estava eu, nesta sala vazia, embebida em café e leitura, esperando você me dizer algo para que tivesse algum pretexto à escrita.

No caminho de casa até aqui, meu pensamento se dividia entre a atenção no texto e qualquer imagem que pudesse me fazer escrever, mas as ideias estavam desidratadas. Então, quando voltei a pensar na escrita, entremeio a uma outra leitura, seu e-mail chegou com esta mesma questão: a tentativa da escrita. É um chamado.

Igualmente, deixo de lado o meu comprometimento com o comprometimento e ponho-me a escrever, essa qualquer coisa que você tem a chance de ler. E penso que a falha com a rigidez do cronograma, essa rendição ao ‘caos da vida’, faz com que o calendário da rotina faça sentido. Um só existe pelo outro. Não há linguagem que possibilite forjarmos um mundo de empenhos constantes, quando a completude é dada por tempos verbais e conjunções adversativas.

Mas o que mais me interessa é que, mesmo com a corrida à responsabilidade, há esse derramamento das notas que você me narra; que tomamos notas de nós mesmas, como se daí pudéssemos aprender algo além de nós mesmas. Nem tudo o que se apreende é semente de texto. As palavras não são fim, são meio, por isso reescritas à exaustão. A verdade é que pouco nos importa a coerência das frases. A despeito de qualquer lógica, elas comunicam algum sentido, ainda que de contradição – que ao fim é, também, alguma fonte de coerência, ou melhor, de referência a um todo maior, cuja coerência não alcançamos enxergar.

Mas ainda assim, eu insisto, fazem algum sentido, as notas.

29.03.2018 – O amor, a paixão e o transtorno.

Sabe daquelas conversas inconvenientes por razões inadequadas e momentos inoportunos? É sobre isso que escrevo. Ontem falávamos de mais um clássico da miserável existência humana: a paixão e o amor. E esse assunto está a me dar coceiras: onde termina a paixão, quando começa o amor? O que é um, e o outro?

O amor é curioso, mesmo sem maiores definições, parecemos compreender. E o maior dos exemplos acaba recaindo na amizade, aquele amor fraternal, que convive com outros amores, que cabe uma galera. Já para a paixão, os esforços destinados à definição são hercúleos, já percebeu? E ninguém chega a qualquer conclusão lógica ou pacífica. Até debater a paixão gera paixão. Acho que o avanço de que qualquer compreensão sobre o homem algum dia vai nos mostrar que todos os grandes feitos da humanidade, bons ou ruins, foram produtos de paixão. Sabemos que esse negócio é uma maravilha e uma desgraça. Mas não sabemos o que é.

E o romantismo não nos ajuda. Somos produto dos anos 50, de Hollywood, uma das maiores máquinas de desilusão. “É o que dá ver tanta televisão”, nos diria Quintana. Mas eu não colocaria todas as razões na cultura.

A paixão é vício. E como todo vício, causa obsessão. Pensamos e sentimos isso o dia todo, todos os dias. É um prazer profundo. E, para continuar nessa onda, criamos a ilusão de que há correspondência entre você e o outro, objeto de sua paixão. Afinal, quem não gosta de um cérebro embebido em dopamina, serotonina, ocitocina? Mas o objeto despertador da paixão somos nós mesmos, nessa necessidade de nos relacionarmos.

O corpo é também ardil. Essa profunda onda de paixão depende do outro, que não controlamos, que não é uma droga encapsulada e que, fatalmente, não vive e sente tal qual nós vivemos e sentimos dentro de nossa caixa. Essa imagem de fusão é fictícia. Que o que está dentro de nós transborda, mas não em direção à captura do outro. Transborda ao mundo. E o mundo faz disso o que quer, assim como o outro. Esse descontrole é a intransponível sucessão de encontros e desencontros.

Mas, fatalmente, em algum momento, esse desencontro será abstinência. A quebra brusca no fluxo das drogas do amor é uma dolente abstinência. Quem nunca? Não é?! Por todas as vezes que estive apaixonada, não me falhou a dor. Primeiro a droga entregou-me o céu, e logo levou-me para uma volta no inferno. São experimentos de paralisias antagônicas.

Eu escrevo, e penso, e volto a escrever. E chego a lugar algum, que não a recolocação do enigma. E aí sinto uma coceira por toda a pele. E nervosamente temo. Talvez eu possa correr, para não paralisar. Talvez seja tarde demais.

05.04.2018 – O mundo das utilidades

Superfície terrestre, 1940. Conversavam um engenheiro e sua filha. O pai ensinava à criança o quão importante era fazer algo de útil na vida. E explicava que, em seu trabalho, a oficina dos engenhos, todos se ocupavam de pensar e produzir carros. Os melhores carros, ele dizia.

A filha, então, perguntou ao pai para que serviam os carros, e ele respondeu: ora, para que as pessoas possam se locomover. É muito útil um carro para se locomover, disse, mudou nossas vidas!

Mas, a menina calou-se diante dessa resposta. E, então, o engenheiro decidiu prosseguir com perguntas.

– Para que servem as panelas, minha filha?

– Para cozinhar – respondeu a menina.

– E para que serve uma colher, ou um garfo? – continuou.

– Para comer.

– E por que você come?

Após pensar por alguns longos segundos, a criança respondeu:

– Para não morrer de fome, mamãe sempre me fala das crianças que morrem de fome.

Ambos permaneceram em silêncio. O pai já se preparava para sair da sala, satisfeito com o momento de ensinamento, quando sua filha lhe devolveu a palavra:

– Papai, por que você me pergunta para que servem as coisas?

– Porque as coisas têm que ser úteis, como o trabalho do papai. – respondeu um pouco embaraçado.

– Mas por que tudo têm que ser útil? – perguntou a menina, enquanto rabiscava uma folha de papel.

Já com alguma impaciência, o pai desviou o assunto.

– Vamos, querida, mamãe está nos chamando para almoçar.

– Mas papai – prosseguiu a menina –, não pode alguma coisa ser inútil, mas ainda assim importante?

Só que quando levantou o olhar do papel para ouvir a resposta, o pai já não estava mais lá.

A menina cresceu, e não tornou-se engenheira. Foi fazer qualquer que não servisse para nada, como perguntar “para que serve a utilidade?”.

09.04.2018 – Em trânsito

Há algo de confuso percorrendo por entre meus nervos. É como um fluxo de pensamentos inacabados em contraposição à corrida de sensações que parecem não corresponder a um sentimento único. Como se estivesse, eu, percorrendo por sinapses ruidosas. Dessa inexatidão, me vem a urgência da escrita, que recorda de todos os pensamentos já perdidos pela falta do papel e caneta.

Eu vejo uma cena de andarilhos. Pernas seguidas de pernas. O fluxo de gente, tão inacabado como meus pensamentos. Essas pessoas, essas vozes, em sua totalidade, correspondem ao axioma do mundo, que jamais acessamos em sua inteireza. Apenas nos chegam as generalidades: composição de pensamentos inacabados. Apenas nos chegam os resumos de todas as sensações possíveis.

Mas nem as generalidades, nem a síntese das sensações do planeta nos facilita o que se processa nesse lado de dentro, que incessantemente transborda ruídos para o lado de fora, ou o lado de dentro mais adentro.

Eu vejo o trânsito de pessoas, eu vejo a cidade, e em meus olhos tenho um grande mapa de todas as possibilidades. Mas ainda não aprendi a lê-lo.

[…]

Em meus ouvidos, a composição soa: “There is someone in my head, but it is not me..”. Deve ser eu mesma, iletrada, deslocada e em transbordo.

10.04.2018 – ainda “vareia”

A cada dia me recordo de que o tempo já não é mais. A agenda é outra. As semanas são iguais. Os dias nunca se repetem.

Às terças escrevo em pé, aguentada pelo balcão que além de mim serve de apoio ao papel, à caneta e à xícara de café. Bebo do café. Fito esta esquina, que parece sempre ter estado por aqui. Mas as palavras nunca são as mesmas, nem o mundo, nem eu. Nem a esquina.

Às terças, o café parece ter o mesmo sabor. Mas não exatamente. As horas de sono têm sido econômicas. Mas profundas.

As professes que escuto por quase todas as noites, os escritores com quem tenho conversado por quase todos os meios-dias, fazem sentido. Finalmente fazem algum sentido entremeio a tudo isto aqui. Este caos. Mas, noite passada, sonhei que me diziam que o caos era eu. É certo de que o caos está em mim, e que de mim escapa.

Foram dois anos de seca, enfrentados com o agracio de algumas precárias tempestades. Mas a seca parece, agora, ter-se ido à outra paralela. E, nesta paralela, que não é a outra, movo-me pela inconstância de uma correnteza; sempre a correr. Em direção ao lado de fora. Movo-me na alteridade, mas uma específica, que não é a negação do mesmo.

03.03.2018 – As sombras dessa cidade

Todos os dias, muitas pessoas compram coisas. Muitas pessoas compram água. Especialmente água. A necessidade mais essencial, talvez não tanto quanto o ar. Por isso que o ar ainda é de graça.

Pernas são perseguidas por pernas, cotidianamente. Algumas seguem, outras param, outras viram à esquerda. Em algum momento, todas param. Uma água, um suco, um café, um sanduíche, ordenam. E, então, continuam. Um trago de cachaça, um copo de chope.

As ruas são trafegadas, incessantemente. A rua é trânsito. Muitas colisões, raros encontros. Os olhares fitam o chão. Quando muito, o celular. Ninguém repara quem para, quem segue. Quem toma uns tragos, quem toma atitude, quem toma vergonha na cara ou susto da vida. Ninguém sabe quem para e compra uma garrafa d’água.

– Menina, a primeira vez em que te vi, foi quando estava comprando água. Ali, na banca da glória, em frente ao banco e o bar – alguém lhe escreve.

17.04.2018 – hay días que me gustaría poner fuego en todo

Há dias em que me sinto abandonada pela sorte do destino que penso pertencer. Ou do destino que teimosamente chamo de meu, mas que não se entrega a mim tal qual essa brisa maravilhosa que afaga minha pele causando um misto de alívio e arrepio.

Há dias em que o destino parece me dizer: agora é a hora em que você grita. Ou desespera. Ou não entende nada do porquê do curso da brisa, que foi afagar a outro, ou ninguém.

Há dias em que o destino parece me dizer que é mais uma daquelas doces invenções, que apenas servem para destroçar a alma – e com as quais terei que lidar para o resto dos dias.

Há dias em que tudo parece fugir da ordem em que estava, como se o destino brincasse de alterar meu ponto de vista, tirando-me qualquer ponto a que tivesse me agarrado.

Há dias em que parece que tudo o que já fiz de nada vale. Que os caminhos que trilhei foram em areia fofa, apagados por essa brisa calma que me acalenta e me desespera.

 

Eu sabia o que era a realidade, fui ler sobre a realidade, e agora já não sei mais do que se trata.

Eu pensava de que tinha uma breve ideia sobre o que seria o amor, consultei o primeiro, o segundo, o terceiro dos pensadores, e agora já nem mesmo sei se amor existe ou caberia nessa realidade que já não mais se apresenta como algo real a mim.

Até então, eu parecia saber de minhas escolhas, mas ao mesmo tempo em que as executo, não sei mais do que se tratam.

É o tal do ponto de vista, que só enxerga ao longe ou muito longe, me dizem.

É a tal iminência, que não é binária, menos ainda controlável, me dizem.

Só o destino não me diz nada. Só o caminho não me mostra nada.

Há dias em que parece que tudo o que parecia existir era apenas uma ilusão, que já nem ilusão mais é.

 

Estamos em meados de abril, a cada dia que passa, sinto um dia a menos ao futuro que não chegará. Não saberia nem para onde correr. A única coisa que faz sentido, agora, é ouvir Like a Rolling Stone em looping e pensar que talvez minha solidão não seja assim tão privilegiada. O que, de novo, me põe em conflito.

19.04.2018 – um elogio ao outono

Antes de lhe escrever, eu pensava. E os pensamentos foram imensamente mais bonitos e completos e interessantes do que estas palavras que encontram o papel. Mas há, aqui, alguma sugestão.

Falo de emoções de princípio de estação. De início de outono. Sempre que a temperatura do ar começa a esfriar, as cores a mudar, algo em mim também se altera. O sentimento de ir vivendo no cotidiano muda. Há algo que a mim se aparece como muito lindo e nostálgico nesses ares. Há uma libertação em cada fio de cabelo que se arrepia ao descompasso da brisa.

Falo de alguma plenitude. Como se depois de um verão e uma primavera a respiração fosse finalmente possível, calma e fresca. É o abril. Há o frescor e os pensamentos do corpo e da alma. Do que imana e do que transcende. O outono me ateia existência.

E uma nostalgia. Há uma intensa nostalgia do que foi e do que não foi. Das possibilidades de encontro, reais e imaginárias. Todas reais. Todas muito reais.

Há uma sonoridade. O outono sucede nesta melodiosa fleuma. Neste abrandamento de cores e sons. Meus olhos são pálidos, minha pele é pálida, meus ouvidos são econômicos, minha voz é grave e meu caminhar é cadencioso. Sou plácida.

No outono eu quero estar aqui, mas também lá. Quero estar só, mas também acompanhada. Quero um café com meu mundo de dentro, e com o mundo que crio afora. Quero a plenitude que encontro apenas na imaginação. Quero a calentura que encontro apenas na imaginação. Quero a paisagem que encontro apenas na imaginação. Quero caminhar sem pressa naquela rua que aparece repetidamente em meus sonhos.

No outono, quero a textura do pano. A textura da bebida quente. A textura do sopro temperado. A textura do alvéolo. A textura do silêncio que se pode ouvir, das cores que se pode ver, das palavras que se pode tocar.

Sinto que quero estar neste lugar onde Thom canta os números. Mas não consigo lhe explicar realmente como sinto este sentir tão forte, tão real, que me faz sentir exatamente o que sentiria se estivesse ali.

No outono eu faço sentido.

17.05.2018 – café no balcão

Estamos em meados de maio. Ainda é outono. Eu começo um novo caderno, deixando para trás uma porção de escritos que não lhe enviei, porque já esgotados em seu sentido dialógico.

Eu estava pensando isso, de que em relação ao verão e ao inverno, que são estações bem definidas, o outono se coloca como transição. Como um meio do caminho. Mas em relação à primavera, encontra o seu oposto. O outro lado do eixo. Então é também marcante, e fim do caminho. Depende de onde quer se partir, e de onde quer se chegar. Mas é tudo muito restrito, a matéria não me permite sair da primavera e ir diretamente ao outono. Antes, há que suar o verão.

Hoje é tipicamente um dia de outono. O ar esfriado é indicativo de se seguirá por um inverno. A chuva é amena, resquício das tormentas de verão, e sinaliza que se arrefece até a chegada da secura. Os caquis estão por todos os lados. Hoje é sobretudo outono.

Apesar de já ter tomado uma xícara de café em casa, eu paro aqui, neste estabelecimento na esquina da São José com a Rodrigo Silva – tão tradicional que fico pensando quem será que já se escorou sobre este mesmo mostruário. E paro aqui só para ancorar-me no balcão e compartilhar com os homens o narcótico matinal. Só para ser o outono dentre a incivilidade veraneia. Só há homens neste balcão. É realmente notável, parar para tomar um café em pé, diante do balcão, antes do trabalho, é um ato especificamente masculino.

Além de mim, a outra única mulher no recinto é a garçonete do outro lado do balcão, que se ocupa do café e de não ouvir as investidas casuais de senhores engravatados. Ela atende a mim com uma confidência no olhar que todos esses senhores nunca terão acesso. É constrangedor, apenas homens param para tomar um cafezinho antes do lavor.

Amanhã estarei aqui novamente. Pela confidência, pelo café, pelos homens, e pelo balcão, que me sustenta na vertical e apoia este caderno com novas palavras e novos diálogos, que se esgotam logo que viram tinta sobre o papel.

 

It’s like a pain in the chest.

17.05.2018 – Estar Só, um ato de rebeldia

Se eu ecoasse essas palavras dentro daquela caixa construída de quatro paredes de concreto, fatalmente voltaria à infância. Lá é assim, um túnel do tempo, falo “ah” e já estou na infância. Não é possível que seja assim, eu penso. Mas é. E sempre me pego no dilema humano, se o homem é ou não fruto do meio. E já não sei se essas vontades que despertam em mim em urgência são expressões de mim, ou de mim porque fui a criança que fui, onde fui, com quem fui. Há uma porção de mim que vê essas urgências como a essência mais essencial e quase sempre que surgem, busco respeitá-las. É um mecanismo de preservação do si, teorizo.

Largar tudo e andar.

Já faltei ao trabalho. Já desmarquei com amigos. Já menti. Já sumi. Já cometi todas essas e algumas outras criticáveis ações para deixar tudo de lado e sair andando. Sem um destino específico. De preferência em um dia cinzento, frio e sem chuva. De preferência no outono.

Minto porque andar nunca parece ser uma justificativa aceitável para uma pausa, ou a falta. Mas, para mim, dentro de meus critérios internos de ética pessoal, me aparece como um dos motivos mais nobres. E assim me redimo da culpa da mentira.

Andar. Passar uma quarta-feira respirando o ar da rua. Ir sem saber para onde. Em um lugar desconhecido, com uma língua ininteligível e pessoas com feições nunca antes vista. Ir para longe. Um desejo de ir para o outro lado do mundo, só porque não há como ir à face oculta da lua. Ir. Só. Estar só para encontrar. Há vezes em que a solidão é da ordem das necessidades primeiras. Foi assim naquela vez em que saí quase que foragida do Reina Sofía para andar até o Templo de Debod só. Sem olhar para o mapa. Para perguntar o caminho a desconhecidos. Sem olhar para trás. Para permanecer só. Para assistir ao pôr do sol só. Para dividir uma refeição e um copo de vinho com a solidão. E, então, reencontrar.

Fui. E continuo indo. E, honestamente, pouco me importa os motivos da urgência. Se a minha linguagem se fundamenta em contextos de solidão. Se é incompreensível ou assustador àquele que não acessa essa parte de mim tão eu. Mas, se compreendes, convido-te, a andarmos sós, a compartilharmos uma tarde de pernas seguidas de pernas, e solidões. Que, ao fim, a vida na cidade é isso mesmo, não é?! Fluxo de pernas e solidões. E encontros, seguidos de solidões. A luta é contra ser só. Mas não há como não ser só, sem se permitir experimentar a solidão. A urgência da pura solidão, do caminhar casual com os pensamentos livres. Com os pensamentos sendo. Do caminhar irrefletido como combustível da reflexão.

É preciso ir. É preciso andar. É preciso ir, para voltar. É preciso ir só, para voltar e ser com o outro. Genuinamente. Compartilhando até mesmo solidões. E pensamentos. E mundos de pensamentos. E caminhares.

04.06.2018 – Sonhei que era inverno

Acabo de me recordar que esta noite sonhei que lhe escrevia, e já era inverno. Eu me desculpava por ter deixado de lhe escrever ainda no outono. E hoje, quando vi que ainda era outono, percebi que ainda há tempo. O inverno ainda não começou. Há ainda algo como duas semanas de aqui até lá. Por um lado, parece muito pouco tempo. E é mesmo. Mas, por outro, me parece tempo suficiente. Parece-me como o prazo que o tempo dá a si, para mudar. E eu mudo com ele. Já tenho minhas forças se arrefecendo, neste quase um ano que anseio por dar concretude à uma decisão. Por dar forma a ideias. Por pôr um prazo ao processo de proposição. Mas ainda me parece como algo muito novo, muito sem forma, muito amador. Honestamente, já pouco sei por onde mais andar, por onde ir. Talvez por isso anseie a chegada do inverno. E espero que tenha havido tempo suficiente para que aquele sangue que jorrou de minha testa, tenha se transformado em alguma coisa, que me remeta a algum lugar. É só o que espero. E espero. Porque já pouco sei sobre o que mais poderia fazer. Todo processo tem de ser assim, um labirinto?! E como minto. Tudo o que mais queria, era passar um mês em casa, fazendo absolutamente nada. Tendo absolutamente nenhuma ideia. Experimentando a tarde azul, ausente de desejos.

Eu já nem mesmo sei quando já estou em 2018.

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