24.06.2018 – UM OUTRO INVERNO

Há pouco me apercebi de que ao inverno chegou um novo começo. Mas quem consegue dizer que há inverno quando se sente o mormaço dos 28º entrando pela janela, e a pele queimando na breve caminhada até a feira?

O único inverno que vi foi no meu café, cada vez mais quente. Com cada vez mais leite. Eu faço do inverno uma desculpa para o café com leite, apesar dos processos inflamatórios. Eu aguardo o inverno para dançar quadrilha, mas ninguém sabe dançar quadrilha no calor. Eu espero do inverno seus dias cinzentos e a licença para não sair de casa sem precisar uma desculpa. Eu espero o inverno e seus dias secos e frescos para caminhar só.

Ainda espero o inverno.

27.06.2018 – O AMOR QUE NÃO SE FAZ

Igualmente utilizo o aplicativo para o controle hormonal e de trocas simbólicas. E encontra-se razoavelmente assinalado. Diria que satisfatoriamente marcado, apesar de haver anos que não faço amor. E já nem sei se alguma vez fiz. Mas minha pele reconhece sua ausência.

Apesar disso, gosto de pensar que fazer amor é sempre uma possibilidade. Gosto de saber que a qualquer momento a vida poderá me oferecer amor ou, de novo, a ilusão do amor. Igualmente saborosa.

Muito que certo que essa opção ainda não cabe no aplicativo.

28.06.2018 – O HOMEM QUE SE FAZ

O homem não existe. O homem é um acontecimento que se renova sucessivamente. E também não é cumulativo… não é de um eu que se acumula, que falamos. Mas de um eu que se renova. É falando contigo, que sei quem eu sou. Não é da ordem do existir, que falamos. Mas do acontecer. Do ser que acontece. Do ser que vai acontecendo. E que vai acontecendo, e só vai acontecendo no mundo.

Ai que coisa mais linda essa coisa de mundo!

05.07.2018 – ALGO EM MIM É IRA     

Agora estou de “férias” – férias de uma das trocentas coisas que tento fazer ao mesmo tempo. Estou de férias e a maior alegria é a grana do transporte que economizarei este mês.

Tem tempo que não escrevo, porque não tem dado tempo. Na verdade, é que esta forma de escrever não está mais me bastando. Falta-lhe sentido. Falta-lhe criação. Isso aqui tem me parecido a dialética de mim mesma, quanto invento a mim mesma. Digo a mim mesma. Me afirmo, me contradigo, me refuto. E isso me parece o caminho pleno ao insuportável.

Este aqui é um eu esgotado. Que já não é mais, e o é lugar para este ‘não ser’.

São oito e meia da manhã, e já estou no segundo café. Estou cansada. Acordei cansada. Meus olhos estão embaçados. Mas há muitas páginas de exegese que me aguardam. Se simplesmente devorá-las tivesse a capacidade de me fazer compreender, tudo seria mais fácil.

É curioso que nesse meu cansaço de mim, tudo me faz cansar ainda mais. Tudo não. Todos. Estou em crise relacional, poderia dizer. E de alguma forma isso me desperta a uma espécie de ira. O que me parece bastante interessante, já que pouco nesta vida permiti-me o sentimento da raiva.

E a raiva tem um componente interessante, que nos tira da inercia.

Tem uma nova postura que venho tentando realizar em minha prática de ioga, que é a chave da frustração. Nunca consegui realizá-la. Mas a vez em que cheguei mais perto, foi quando meus músculos estavam embebidos em raiva.

A raiva é o oposto da resignação, não é?! E dela pode vir satisfação. Do rancor e do recalque, não. Deve ser por isso que os grandes heróis da tragédia eram seres coléricos, e seus opositores rancorosos, invejosos, recalcados. É que os antigos já sabiam do óbvio que acabo de descobrir.

Sinto-me em plena ignorância. Cada vez mais perto da consciência de minha ignorância. E isso me move.

13.07.2018 – ESSE NEGÓCIO, MEMÓRIA

Eu andava pelas ruas de uma cidadezinha do interior da Alemanha, pela qual estava completamente apaixonada, e, em sentido oposto ao qual eu caminhava, vinha um senhor, um enorme senhor, com uma grande barriga coberta por uma jaqueta vermelha, esplendorosa barba salpicada por fios brancos, e grades pés, muito grandes pés, que quase explodiam os sapatos de couro azul claro. Naquele mesmo instante em que o vi, pensei estar vendo Karl Marx. Verdade que seria um Karl Marx perfeito para uma história em quadrinhos, mas era Karl Marx.

Hoje, pensando melhor, acho que era, em verdade uma mistura de Karl Marx com o personagem Hagrid, de Harry Potter. Ainda que isso tenha acontecido há alguns anos, lembro-me muito bem da cena; tão bem que é a memória mais viva que tenho da cidadela, apesar de ter retornado lá, de tão apaixonada que fiquei. Nesse dia não estava só, mas apenas eu o vi. E arrisco dizer que sequer ele já se viu, da forma que eu o vi. Foi uma aparição. Aquela figura, inteiramente desconhecida, apesar de sua grandeza ignora por completo o lugar que ocupa em minha memória. A importância que teve na minha experiência daquela cidade. A lembrança é tão absurda, que poderia ser convencida de que se trata de uma criação da minha imaginação, e que sequer estive em tal cidade. Mas ainda assim, me lembro.

Ainda anos antes, eu estava sentada em um bar com algumas colegas de faculdade, em uma sexta-feira fria e ensolarada como hoje. Ríamos muito neste dia. E eu também poderia ser convencida de que este dia nunca aconteceu, não houvesse um vídeo de mim nesta exata cena que lhe narro. Eu falava qualquer coisa, ou ria sobre qualquer coisa que haviam dito, quando falei assim: olhem gente, olhem ali aquele senhor gnomo. É um gnomo.

Ninguém o viu. Mas eu o vi e tão vivo quanto Marx-Hagrid, está este senhor-gnomo em minha memória. Era um senhorzinho muito magro e pequeno, de cabelos muito brancos e pele completamente lisa, apesar de transparecer a vivência dos anos. Nunca mais deparei-me com semelhante figura. Aquela figura, inteiramente desconhecida, que em sua pequeneza ignora por completo o expressivo lugar que ocupa em minha memória. Infelizmente, este vídeo onde era possível ver-me vendo-o, foi-se embora com todos os outros vídeos e fotos que tive nesta vida.

Eu não sei quem são, o que são, onde estão. Mas de alguma forma essas memórias retornam aos meus pensamentos. Como hoje. Como agora. Que pensava em qualquer coisa e logo veio-me à presença aquele Marx de pés gigantes. Ainda sou incapaz de compreender o porquê de minha memória ter tanto apego por essas figuras.

23.07.2018 – Nós, máquinas.

Há tempos que vivo este mal-estar, que aparece, retira-se e, então torna a aparecer. Um mal-estar que não é constante, mas latente. Feito de um silêncio que às vezes é interrompido por um grande incômodo. Que já foi medo, mas agora é ansiedade.

É um desassossego que me desperta do sono com a pergunta nunca respondida de sermos como máquinas. Uma máquina que trabalha incessantemente, ainda quando dorme. Mas, que a qualquer momento pode parar de funcionar. E parará, fatalmente. Mas nunca saberemos quando. Será que saberemos? Às vezes, no meio do sono, me pergunto: ainda funciono, mas como será quando parar de funcionar? O que será que se sente?

Não sei, mas ainda saberemos. Todos.

E gostaria de saber só daqui em muito tempo. Mas até então, há algo que me alerta ao fato de poder ser a qualquer momento. É uma consciência da finitude que se manifesta na forma das ansiedades mais mórbidas, mais estranhas. Mais inúteis. Mas abarrotada de vida.

Terrível.

31.08.2018 – O Começo  

Ontem mesmo eu pensava em busca de compreender porque tenho escrito tão pouco. Foi quando recebi um texto seu, uma mensagem densa, cheia de questões sobre as quais pensei por horas, sem ser capaz de me pronunciar, contudo. Apesar deste tanto a dizer, me falta o sequenciamento e organização de versos em prosa. As palavras me aparecem aleatoriamente, se é que é possível qualquer aleatoriedade em um mundo que recebemos pronto, mas que precisamos constantemente produzi-lo, para que o entreguemos pronto a outros, que igualmente terão que incessantemente forjá-lo.

Há, de alguma forma que não sei como, um acúmulo de incorporiedades que nos pertencem em simultaneidade, mas que acessamos de formas distintas, às vezes igual, e que nos permite compartilhar uma identidade de espécie. Veja, de espécie, eu digo. Parece-me algo que apenas todos os sentidos em conjunto são capazes de aperceber.

Mas não consigo pensar em nada que queira exatamente dizer, penso apenas em palavras. Em alguns momentos essas palavras formam perguntas. Questões de uma palavra só. Porém? Há que ter algum porém nisso tudo.

Eu lia Todorov e ele dizia que naquele livro não pretendia apresentar nenhuma teoria, talvez porque teria lido demais as teorias de outros. Talvez seja porque tenho lido demais que não tenho me aventurado a escrever. Algo me silencia no papel. E, assim, essas palavras conversam comigo, só comigo, nesse meu mundo, onde eu mesma sou objeto. E os outros, tanto outros, tanto eu.

“Quando é que TU começaste, se é que TU já começaste?” É a pergunta que alguém me fez, que eu me faço, e para a qual não encontro nenhum texto, só palavras. Talvez porque ainda não tenha começado. O mais provável, sempre, é que ainda não tenha provado de meus próprios começos. No entanto, diariamente, há uma iminência que encontra seu começo.

De alguma forma, um vento primaveril já se apregoa e eu canto a mim mesma: “hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador”.

05.09.2018 – As Coisas

Igualmente o fogo que consumiu o Museu, fez-me pensar em minha mãe. Mas com um sentimento nada parecido com o seu, o meu, é de revolta.

Eu sempre tive um curioso apego pelas coisas. Sempre gostei das coisas. Não raro pego-me mostrando para alguém, muito orgulhosa, às vezes de forma até infantil, algum objeto que tenha em casa. E, não raro, me frustro por não conseguir fazer enxergar o mesmo encanto que sou capaz de ver. Sinto-me incapaz. Sinto-me só.

Minha mãe, de forma bastante perversa, sempre tachou esse meu apego às coisas de materialismo. Mas minha mãe é uma pessoa que sempre lutou para apagar sua própria história, numa fuga de si. Certamente que meu caminhar em sentido oposto seria da ordem de alguma ameaça ideológica. Seria a lembrança de que é preciso lembrar. E, por isso, seria preciso gerar culpa. E gerava! E aí, por bastante tempo, gostei das coisas em negação, com vergonha, escondida, protegendo o encantamento de minha mãe. Essa, cuja ignorância não coube dentro dela mesma.

Enquanto estava nesse longo e sinuoso processo de decidir o que faria de meus pensamentos nesta vida, li um texto que me contava da história das coisas. O autor propunha uma antropologia das coisas. Não por materialismo, mas porque as coisas nos contam suas próprias histórias. Porque as coisas fazem parte do mundo. E fazem parte de nós. De alguma forma, enquanto lia aquele texto, eu e ele partilhávamos de um mesmo encantamento. Foi libertador. E foi decisivo.

Foi tão decisivo que decidi que buscaria seguir pelos bastidores de um Museu. Cheio de coisas. A primeira vez que estive por lá com o propósito de permanecer, cheguei meia hora antes e ainda assim atrasei-me alguns minutos, porque não conseguia deixar de olhar os pássaros empalhados nos armários de vidro que contornavam os corredores até a porta em que deveria bater. E foi decisivo.

Na segunda vez em que lá estive com o propósito de permanecer vi, ali no canto, em um saguão de passagem, sem pretensão alguma, pedras. Pedras que vieram desse mesmo chão que nos conforta. E foi decisivo.

Na última vez em que lá estive, pensei: acho que fico mais um pouco, para visitar o Museu. Mas tinha que trabalhar, já estava atrasada. Então apenas olhei mais um pouco das pedras e, sem demora, parti. Sem pesar, já que nunca é razoável imaginar que um Museu que esteve 200 anos por aí, um dia não estará mais. Porque haveria de não estar? Afinal, é necessário muito esforço para destruir todo este peso. Pelo visto, subestimei a força dos governos brasileiro, muito maior que a ignorância de minha mãe.

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