Há aquela expressão, “desde que o mundo é mundo”, a ficção maior de que é possível saber de todo o tempo do mundo. A excelência da metáfora. A pretensão de que é possível saber o mundo em sua imensidão e tempo. Imensidão, que se espalha por todo o chão. Que é chão e mundo. Em que sendo superfície contínua não comporta lados, de dentro ou de fora. Ainda que as partes deste mundo insistam em enxergar a partir de dentros e foras. Mesmo sem poder  responder à pergunta elementar sobre qual lado estaria do lado de dentro.

Esta dicotomia de internos e externos, constituindo de qualquer pele uma fronteira, é irrelevante. Constituindo de qualquer chão uma fronteira, é irrelevante. Porque não cabe à continuidade ser fronteira. Há que se olhar para o chão. Teimamos em olhar para o céu, mas, até hoje, o futuro veio do chão. A partida ao céu, veio do chão. A imensidão do céu só vale pela imensidão do chão.

A imensidão é verde

O avião acaba de decolar e após dez minutos de voo só o que se vê é a Amazônia que de tão esplendorosamente imensa, força-me a confrontar a pequenez desses enigmas que enfrento na existência; mas diferente de meus olhos, lembra-me o coração de todas as emoções que posso sentir sem qualquer métrica de sequência. Meu coração se aperta, como se desse movimento fosse possível fazer os olhos verterem água, tal qual o movimento que faz da rachadura na pedra uma fonte.

Por esta janela é possível alcançar apenas três cores: azul, verde e branco. O verde é tão imenso quanto o azul. Colados na janela enxergando essas cores, meus olhos se embaçam. Mas a turvação é por aquilo que não se pode ver, e não pelo movimento de constrição que faz do coração a lembrança da efemeridade da vida, e que já havia esquecido. Este é um momento em que nada mais faz sentido que não a ode da travessia; que não o sangue que pulsa da sola dos pés em contato com o chão e irriga todo o corpo. Nada mais faz sentido que não a respiração das folhas, da menor das folhas, que me permite também respirar.

Pela janela, a imensidão ocupa o profundo dos olhos que querem enxergar até engolir a visão, como se de ali fosse possível passar por um portal. Mas o verde é tanto, que não cabe dentro de meus olhos. E a respiração é tanta, que não cabe em meus pulmões. Cabem apenas no azul do céu, tão imenso quanto. E, nesse choque de moléculas, os rios podem voar e virem a meu encontro, e permitir-me os sentir em precipitação no sul do hemisfério.

Uma estrada de terra recorta a floresta. Divide-a entre os lados de cá e de lá. E quanto tempo será preciso até que o verde recupere seus lados?

Eu olho pela janela e o que enxergo é uma imensidão anterior a qualquer existência que aluda à minha existência. É da mesma ordem de vastidão que há pouco vi pelo precipício, a um passo de meus pés. Naquele abismo que tem por destino encerrar-se em um belo vertiginoso.

Qual o sentido de toda essa grandiosidade que não a de ser, independentemente de qualquer sentido que lhe seja imposto?!

 

“A Terra é azul”, Gagarin repetia. E eu já dediquei diversas tardes à tentativa de compreender tudo o que Caetano quis dizer, e disse, e diz, com esta poesia que me emociona a cada nova leitura, pois gostaria eu de tê-la escrito:

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mande coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas no nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...

 

A Imensidão é Coco

Estou só. Tão só como há tempos não havia estado. Acho que a última vez foi em 2011.

Há vezes em que me culpo por estar [ou querer estar] só. Mas na maior parte do tempo sinto-me muito livre. Neste volume que leio, um dos personagens me diz que “a vida verdadeira ocorre quando estamos sozinhos”. Sem a necessidade de mais explicações, compreendo-o. Simplesmente aquiesço.

Esses dias em que se caminha só são necessários.

Coco e areia. E mar.

A imensidão é o imenso que cabe de mar a mar. De aqui, se sigo por uma linha reta, vou à África. De África, à Europa. De África, à Oceania. De África, à Ásia. De África, às Américas. Se caminho pelo mar, conheço o mundo.

A terra é cor de terra; laranja, cinza, marrom. A Terra é cor de mar, cor de meus olhos, cor de céu, cor daquela cor, o azul. A Terra é azul.

A imensidão continental é coco. Intervalada pelo espaço equivalente ao diâmetro das copas das palmeiras. Palmeiras são mulheres esguias de cabelos esvoaçantes e pesados brincos. A imensidão é feminina.

A imensidão é coco. Eu olho para a esquerda, coco. Para a direita, coco. Para frente, coco. Atrás de mim o rugido do mar é uma tentativa de definir uma fronteira entre as imensidões.

O mundo é azul. O mundo é imenso e de tão imenso não cabe mais na imensidão. O azul é imenso e de tão imenso não lhe coube o chão, foi ao céu, ocupar a imensidão do céu, que é maior ainda. E, de tão imenso, não pertencendo mais a imensidão alguma, o azul comprimiu-se dentro da circunferência de meus olhos. Para só então poder, por meus olhos, enxergar a imensidão de si.

A pedra já foi uma grande pedra. Uma imensidão de pedra. O tempo a reduziu em areia. Menor em tamanho, maior em quantidade. Ocupa o mesmo espaço, só que mais perto do chão, mais perto da terra, mais longe do céu. Desceu do alto, só, ao fundo, multiplicada. A areia é a pedra mais sábia, porque serve de caminho. A areia é a pedra mais longe do tempo, mais próxima da eternidade. Ainda pedra, mas também areia: a areia é a duração: o tempo mais longe do tempo.

 

Quando chegar o dia em que for possível comprar a eternidade, a poção virá em frascos em forma de ampulhetas, onde no rótulo poderá ser lido: tome seu tempo!

Tome seu tempo! Tim-Tim!

 

Mar de Pernas

Por entre automóveis, gentes, ruas e morros, caminho, em logradouros públicos, desviando da fumaça. O movimento existe, mesmo se estou inerte. A permanência exige tanta força que a paralisação não é inércia. Pessoas partem e chegam, o trânsito é a constância que circula. Sinto-me naquele poema cheio de pernas e, igualmente, com o coração abarrotado de questões, mas sem pergunta alguma nos olhos.

É um olhar desguarnecido que enxerga através; qualquer espectro do que é. Quase nada é visto, além do movimento à beira de mim. Assisto opacas alegorias. Os rastros são a fumaça de que desvio.

As tardes são azuis, os desejos quase nenhum. Mas as pernas são muitas, umas após as outras, em um ritmo que nunca encontra sossego. São pernas inquietas que, no constante movimento, apagam os rastros de si. Como o mar, que sucessivamente apaga as marcas deixadas na areia.

Pelos dias eu caminho, por entre automóveis e gentes, mas sobre a calçada que cobre o chão, não me é permitido deixar marcas. Talvez se tivesse mais tempo…

Eu tentava entender toda a extensão do mundo no chão que se percorre nesse vai-e-vem de pernas. Todo esse chão. O amparo maior. Se tivesse que apontar um deus ainda não criado pelos homens, seria o deus do chão – o último dos recursos. O último dos abraços. O maior dos leitos. A maior das imensidões tangíveis. Cobertura de essências.

Toda essa imensidão de meus pensamentos que transbordam para fora de mim, descendente de poeira cósmica, que supera o peso de qualquer corpo celeste, mas que, ainda assim, o chão suporta.

A aflição é tamanha, que só me satisfaria deitar-me no chão. E permanecer, até que tivesse novamente forças para viver na vertical. Talvez se tivesse mais tempo… me seria entregue o mundo, por este chão, este imenso chão por onde caminho.

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