14.12.2018

Eu andava pensando sobre o acaso. Em todas as possibilidades do acaso, que já não sabemos se somente é, ou se é plano. Sobre o acaso que não se sabe mais se é acaso, ou se é destino. // Em uma vida de destinos não caberia o acaso. Em uma vida de destinos, a explicação é universal. Em uma vida de destinos, nos faltam questões, mas nunca respostas. Do outro lado, o acaso. A não-resposta aceita como explicação. Uma explicação que nada explica, que permite que haja existência em um mundo de mistérios. E descontroles. Talvez mais descontroles que mistérios. // As águas do mar que passeiam por meu corpo, que dançam com meus seios e nádegas, o sol que reflete e faz do oceano mar de estrelas, meus olhos que veem, minha pele que assente, é todo um mundo de acasos.

04.12.2018 – Por Acaso

Eu estava na fila do check-in e começaram a aparecer-me essas ideias. A vontade para qualquer escrita quase sempre me surte nos momentos incômodos e, por isso, mesmo com este caderninho, hoje quase extensão de meu corpo, coleciono ideias perdidas. Sempre torço para que, por acaso, alguém as encontre.

Eu tava pensando nesta vida que se dedica a escrever uma vida. Que decide por viver em inspirações. Uma vida que se impõe por si. Porque é maior que qualquer reticência. E que acontece. Tal qual a inspiração; não se planeja, não se persegue. Acontece. Por acaso, acontece.

Despedi-me de minha avó, já muito feliz pela despedida e libertação do pensamento. Fui diretamente à área de embarque, apesar da antecedência, porque não queria correr o risco do retorno. Na parte de dentro há uma livraria e para lá rumei, apesar de ter comigo um ótimo livro que ainda não dei conta de terminar. E que apesar de escrito por um homem me presenteou com uma descrição de mim que eu seria incapaz de enunciar: ele me diz dessas águas que passeiam por meu corpo.

Mas fui à livraria e lá me deparei com a insuportável. Estava lá, numerosamente. Passei os olhos pelos volumes ainda não devorados, mas que os tenho em meu quarto tal qual objeto de decoração. Porém um deles, de um título que queria eu ter pensado, me sobressaiu aos olhos. Li duas linhas e o comprei porque me pareceu como de última necessidade. Troquei meu dinheiro pelo livro e vim ao andar debaixo, o chão sob o chão, o mais próximo possível de casa.

Sentei-me a mesa de um café e não consumi nada. Pus-me a lhe escrever e porque sinto fome, lembrei que minha avó havia me dado essas bolachas francesas: tão caras quanto doces e gordurosas. Mesmo sabendo que não consumo açúcar refinado, ela teima em me empanturrar de doces. Comi 3 dessas bolachas, porque de alguma forma me parece que devo. Instantaneamente meus lábios ficaram graxosos, minha boca secou e minha pele parecia avisar-me que algo de errado acontecia. Joguei o resto fora – não há famintos no aeroporto. Mas me arrependo de ter jogado fora. Sinto-me culpada, mas joguei tudo fora.

Esta é uma vida esquisita que se dedica a escrever a vida.

Ainda com os lábios desconfortáveis, e sem saber mais o que escrever, ou o por que de ter iniciado a escrita, vejo o livro que acabo de comprar e me lembro de Letícia, quando me disse logo que era muito difícil escrever como Clarice. Pois eu nunca havia lido a insuportável. Mas calei-me, porque não sabia se ouvira uma crítica ou elogio. Não sabia do que se tratava. Então tive que ler. E a tive por insuportável e viciante. E nunca mais a li. E algo me diz que é preciso ler mais, mas receio perder minhas ideias. Mas receio também ser tomada por aquele estado de melancolia e graça. Mas cada um com a inspiração que lhe pertence. Mas ainda não sei o que me pertence. Mas ainda não tive a graça do acaso. Mas também não é difícil. É só ir dizendo. É só ir pensando sem ser com a cabeça.

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12.11.2018 – Desistimos 

Acho um equívoco nosso de sempre pensar a desistência como uma falta de forças, um cansaço, ou até uma derrota, e só. Porque é isso, mas é mais. Também é mais. Há um quê de novidade em desistir; um deixar de ter o controle; um frescor de todas as possibilidades a que permitimos o prodígio do acontecimento por termos desistido. Desistir é um ato em conjunto com a vida. É um confiar no tempo e na possibilidade. E na fortuna. E no amor. E no mundo. E na humanidade do ser. É o descanso. Mas não a paralisia. Não é mesmo?! Não é disso que estamos falando? Porque desistimos e, de repente, da primavera se faz verão.

A caixa de som me diz: “vou andando nas horas, atravessando os agoras, dançando as novas auroras”. E só faço pensar que essa liberdade é invenção de alguma desistência.

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04.11.2018 – Os papeis antigos vão nos salvar

Há algo de lindo que me apetece falar, mas que não saberia dizer. Encontro um pedaço de papel antigo, de não sei quando, onde conto um conto. Walter, um amigo imaginário, vivia apenas dentro da cabeça de uma menina. Um dia essa menina apaixonou-se e de tão curioso, Walter quis sair para adentrar a cabeça do amante. Certa noite saiu pelo ouvido da menina e entrou pelo ouvido do rapaz. E uma vez lá, nunca mais conseguiu voltar. Lá, o meio era pernicioso, uma realidade desconhecida. Atordoado, sem entender absolutamente nada, Walter ficou tão tonto no tentar encontrar a saída que desmaiou, e quando acordou, morreu de tristeza.

Os papeis antigos não deixam de ser novos.

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16.10.2018 – Primavera fúnebre

É uma primavera que não podemos chamar de primavera, por uma incongruência conceitual; essa coisa tão básica de que ainda carecemos com intensidade. Qualquer conceito foi a partir de então desfeito, principalmente o conceito de que antes de qualquer coisa, é preciso conceituar.

É como se todo o esforço humano empregado nesta atividade homeopática, frágil, básica, tivesse sido desconsiderado por conceituadores de última hora, brutos e delirantes. O acúmulo de conhecimento foi desbancado pelo acúmulo da insensatez, para o ilusório acúmulo de alguma miséria que querem chamar de sua.

Nós não estamos em primavera. Ela há de chegar, mas antes teremos que enfrentar este inverno que se arrasta desde 2015. Não estamos em primavera porque para o tempo há conceito e uma ordem inalterável. Não há alucinação alguma capaz de alterar a sequência das estações. Teremos que atravessar o inverno, protegidos do frio, em bandos, protegendo-se do frio, até que alcancemos um começo de primavera. A primavera nunca é um presente, sempre uma conquista.

Esta chuva fina, que nos parece primaveril, tem gosto de lágrimas. As flores têm cheiro de morte. Mas algum amor há de fechar estes cortes.

 

 

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