Estava aqui pensando que de alguma forma misteriosamente pré-determinada as perguntas nos colocam em um caminho claro de procura pelas razões de ser de algo ou alguém, no sentido mais leviano que se pode dar à palavra. Por todos os lados escutamos vozes que questionam ‘o que é’, ‘como é’, ‘onde é’ e ‘para que serve’, ressonando uma já imperceptível cacofonia tranquilamente organizada. E necessária, e instintivamente superficial. Mas essa tão mesma sonoridade plástica, ferramenta de um cotidiano a se suportar, esconde uma pergunta capital em cada enunciado que se pronuncia, mas que nem sempre quer se fazer enunciar, que é uma pergunta esquisita pelo coração, na condição de profundeza, e pelo todo. Pelo sentido grave, e não mais leviano de qualquer questionamento.

É o início daquele papo de doidão.

E eis o momento da clivagem. É nesse lugar de sentidos graves que as respostas socialmente pré-concebidas e especialmente claras já não nos respondem qualquer coisa, porque já não mais correspondem à pergunta que se enuncia por exatas mesmas palavras. É como se nos ocorresse aquele olhar ligeiro e descuidado, único com a capacidade de ver algo de novo no mesmo, e partíssemos a outra frequência da comunicação. E tudo já não é mais o mesmo. E as predeterminações já não têm lugar. E o mundo é um lugar novo a ser construído. E a mente é um lugar novo que quer fazer de si mundo. Que quer fazer de si ser, e ser no mundo. E que recursivamente investiga seus porquês de ser no mundo.

Gostaria de ser mais clara, mas não seria capaz. Porém, ao mesmo tempo, sinto como se qualquer um que encontro no trânsito da rua pudesse compreender com precisão o que digo. Com a mesma precisão que sentia o bêbado do Largo do Machado, quando parou na minha frente, inspirou profundamente, e perguntou-me: “e aí, já tomou quantas hoje?”. Mesmo sóbria eu sabia que já tinha tomado várias naquele dia, ele também sabia que eu já tinha tomado várias naquele dia e também sabia que eu sabia que já tinha tomado várias naquele dia.

Eu e ele sabíamos quantas tínhamos tomado até encontrar aquele caminho sem volta ao coração do mundo. A radicalização da curiosidade em tudo isso e aquilo. No originário e originado. Uma pergunta tão grande que se pretende estranhamente total e que não consigo enunciar com precisão, porque me limita o verbo. Porque falta-me o Verbo. Só não me falta a infinitude de um caminho, e de um além-caminho, e de um não caminho, que me faz pensar o nada e o além, mesmo sem poder dizê-los, porque me falta o Verbo – a mim e igualmente ao bêbado.

Mas se tenho caminho, ponho-me a caminhar com este olhar constante no que vem a frente, no que orienta os lados, no que ficou para trás, e na profundeza: coração do mundo. E os verbos me dão sentidos. E quando fazemos uma pergunta, saímos do lugar. Foi o que nos disse o verbo: “quando a gente se faz uma pergunta, alguma coisa acontece. E quando alguma coisa acontece, também acontece tudo que vem depois.”* Também quando a gente toma umas hoje.

Neste complexo de existência mediado por tecnologias vernaculares, partilhadas por mim e pelo bêbado, há alguma infinitude que nos permite a pergunta, que vale para mim e para o bêbado, mas que invariavelmente nos escapa nesta nossa tragédia e sorte da condição humana: a finitude – tão minha e do bêbado. Esta tensão constante com a feitura da vida, que há de caber dentro da finitude de um homem, que se soma às diversas finitudes humanas, à minha e à do bêbado, mas que pode assumir infinitas possibilidades, para mim e para o bêbado. Porque isso tudo aqui é uma festa, que a despeito da prefeitura do verbo, porque a despeito de nos faltar o Verbo, não há predefinição de como a vida deve ser vivida. E, de novo, serve-nos o verbo: e aí, já tomou quantas hoje? “E uma pergunta pode pôr tudo em movimento.”*

Ainda a mais tola das perguntas pergunta pelo coração do mundo. Eu pergunto o que é o mundo, o espaço, o tempo, a finitude, a natureza, o eu, toda a soma do ser, do mundo, e do ser no mundo. O bêbado também. E me pergunta quantas já tomei hoje. E eu, e o bêbado, movimentamos todo o mundo que, a cada passo, corre de nossos pés. Embora cada passo só possa ser dado porque mundo já aconteceu. Porque há algo no coração do mundo que aconteceu. Porque há sempre a pergunta ulterior que não é explicitamente enunciada: que é o que sou, se é que já sou? De onde sou e saio para tornar-me o que sou? E aí, já tomou quantas hoje?

Há toda uma infinitude de caminho a se perguntar em prol do inútil, pelo coração do mundo. Que são perguntas que não nos interessa o que poderemos fazer com suas respostas, mas o que elas podem fazer com a gente: pôr tudo em movimento.

 

* Musical Elza, texto de Vinicius Calderoni

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