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(Ou quais e quando são nossas fronteiras?)

 

Eram dias de deslocamento. Eu pensava na guerra e nos acasos. E de como a guerra não é nenhum acaso. E na fuga, na verdadeira última razão de fuga: a vida.

Eu pensava nisso e no que seria essa outra ou mesma coisa que nos faz o corpo quente e leva o sentimento à pele, por achar que algo de novo, e lindo, pode acontecer mesmo na permanência. Ainda que na ilusão de que tudo pode estar sob algum controle, humano ou divino. Por achar que algo de novo e lindo pode suceder ainda que sem a fuga. É que permanecer às vezes é também uma forma de ir: ir e ainda bem ter esse algo quase dentro de si. Um algo que é uma grande alegria, mas também vontade de chorar. É diferente, que é um esquentar doce. E divertido. Essa coisa de que falo sem saber o que é.

 

Eram dias de silêncio. Milagrosamente silêncio.

Eu pensava nos sentimentos e meus olhos se deparavam com um azul original, com pedras impressionantes e um verde cor de oliva. Eu pensava nas interpretações e meu corpo sentia uma navegar. Eu pensava, e sorria, e sentia meu corpo subindo e descendo naquela roda gigante. Eu pensava nos sentimentos e nas interpretações e sorria ainda mais. Eram dias de silêncio e ainda bem que havia silêncio, porque eram dias em que estava definitivamente só.

 

Eram dias de visão. E eu corria morro acima.

Eu pensava em qualquer algo totalmente desconhecido. E caminhava a procura de qualquer lugar que me devolvesse aquele silêncio. E escrevia sobre trivialidades. E buscava a profundidade nas trivialidades e suas formas. E dizia a mim mesma que estava tudo bem, enquanto me embriagava vagarosamente. E aos poucos uma suavidade se ocupava de mim. E a visão se ia.

 

Eram dias sem definição.

Eu pensava na doçura de uma paixão. E no medo de um amor. Porque não há alma que aceite se contentar com um amor, mesmo parecendo não haver alma que não queira um único grande amor. Pois que a alma é a mais apaixonada de todas, apenas quer. Pois que o medo é o mais arrogante de todos, apenas previne. Pois a alma, a mais acanhada, é a que diz, e o medo, o mais majestoso, o que acha que não diz. Pois a alma, aquela que diz sem levar-se a sério, e o medo, aquele que não diz contando as palavras. Pois a alma, aquela que sabe que não conhece todos os caminhos possíveis, todas as formas, todas as profundezas e superficialidades. E o medo, aquele que julga que já tudo sabe pelo ínfimo, seu pai. Pois que a alma que se permite conversar com outra alma, e o medo, aquele sociopata.

Eram dias sem definição e eu escrevia sobre coisas que não conheço. Assim como não conheço o futuro. E que por isso não posso saber qual é o significado de hoje, para mim, amanhã. Em dias sem definição os pensamentos são amorfos e com todas as formas. E me sopram aos ouvidos que “além do medo há o mundo”.

 

Era mais outro dia e me deparava com não saber repetir essas coisas. Essas coisas não sei repetir. Sei uma vez e o saber ali se esgota. E depois sei de novo. E não sei mais. E então sei, para não saber.

Vou morrer um dia, nasci também. Mas disso não me recordo. E às vezes não sei se já estou morrendo ou ainda nascendo. Nada existe que resista à transfiguração. Nem eu. Menos ainda eu.

 

Foi um dia de melancolia. E eu sentia pena de mim.

Mas alguém me sorria, e em pensamentos eu sorria de volta, e instantaneamente sentia-me menos melancólica. E era muito esquisito, porque à medida que escrevia já não sabia mais se escrevia o que sentia, ou sentia o que escrevia. Abandonou-me o começo.

 

Eram dias de incógnitas.

Não me recordo ao certo, mas ocupava-me de querer saber se ainda existia o verso, não as palavras, mas o verso. E quais pupilas dilatavam.

 

Eram dias de imensidão. E a alguém eu dizia:

A imensidão é verde! A imensidão é mar!

De um lado, mar. De outro, mar. Azul. Profundamente azul. Exuberantemente azul.

Abaixo também: mar. Acima também: azul.

O mar também serve de caminho. É o caminho primeiro à imensidão do mundo. Mas o mar não dá chão, que não a Moisés. Não oferece leito. Não oferece água – ainda que molhado. Dá de comer, mas não de beber. É a ideia do nada.

É deserto de água! Imensidão de coisa nenhuma!

O mar é azul. É imenso. Só não tão imenso quanto o céu. Só que mais azul. Profundamente azul. O azul mais azul. Que às vezes quer ser verde. E então lhe serve o sol.

A imensidão é luz.

 

 

Eram muitos dias que ainda são.

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