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Eu recito palavras do passado e nelas não encontro presente, mas certamente futuro.

Eu caminho sozinha por entre os homens desta cidade, mas a tarde é minha.

Eu caminho sozinha por esta noite, mas o luar é meu.

E de tanto olhar para longe, esqueci-me de enxergar o que estava perto.

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Tento escrever sobre esta vida, e nada mais claro de que a vida tão só vida não basta. E escrevo pela espera de ter algo de mim que possa ser deixado no papel. Mas eu e papel nos confundimos, neste privilégio de ser e não ser como significado mais fundamental da existência, em busca de qualquer livramento de uma vulgar repressão.

Em algum lugar do passado eu dizia que começava a ter dúvidas. É certo que ainda as tenho. Mas por agora não sei onde estão, nem onde estou. É a prerrogativa da companhia.

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Faz uma semana que não me vejo.

E acabo de notar em meu rosto marcas de expressões que nunca fiz.

Em minha pele há um abismo.

Não sei onde estou, nem em mim, nem nas perguntas que me falham a formulação.

O que sinto é que algo escorre por entre meus dedos.

Há um abismo em minha pele, que é tudo o que não posso ver – inclusive a mim.

E não posso pedir nada ao acaso.

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Passo por esta cidade no interior do Pernambuco, Ribeirão, ornada por casas de barro sobre uma pequena colina à beira da BR 101. Casas quase iguais. Marrons como a terra, pequenas janelas, nenhuma árvore sobrevivente. Mas ao redor, muito verde. Dois quilômetros à frente, no lado esquerdo, uma usina abandonada. Em meio ao que chamaríamos de nada, a carcaça de uma enorme usina carcomida. Uma ferrugem que estivera no ar.

Ao lado da usina, palmeiras imperiais e uma igreja de torre muito alta em estado de perfeição. Penso que talvez o templo tenha sido construído para proteger qualquer coisa que não avistamos. Talvez a si mesmo. É curioso que só a igreja tenha permanecido em bom estado; não a usina, tampouco a gente sob o teto de barro.

A cada quilômetro que se percorre neste mundo, nos deparamos com este pavor maior, que é o de que isso tudo não tenha sentido. E aprendemos a não enxergar mais este pavor.

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Já faz semanas que não me vejo.

E acabo de notar em meus pés cicatrizes que nunca fiz.

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À minha frente o Tenente do Maranhão. Franzino. Dono de uma calma inabalável. Meticuloso. Detalhista. Certamente um líder. Fixo meus olhos em sua figura e o vejo na selva em qualquer situação crítica, como menciona a identificação de seu uniforme. Toda esta calma certamente o permite reações rápidas e precisas. Porque há neste semblante a certeza de que se sabe onde está. Enquanto eu não. E me pergunto: o quê será que o faz perder o controle?

O Tenente não conversa, mas atende a qualquer chamado com clareza. Não desperdiça as palavras. Tudo observa. Os dentes são tão brancos que parecem iluminar qualquer resposta que não sou capaz de identificar.

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Já faz semanas que não me vejo.

E acabo de notar em meus dedos tortos histórias que nunca fiz.

Com quantos quilos de tinta e papel se faz uma certeza?

 

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