Sentava em uma das muretas que me permitia a visão do coreto e do conjunto. E pensava sobre essa coisa que pouco sei, de viver em comunidade; sobre formas de se fabricar um mundo e pensar uma vida em que se vive não exatamente junto, em comunhão, mas orquestrada.

Um jovem em meio aos velhos. Um pai que lê sob as árvores, ao som do bando sem desviar o olhar, e sem deixar-se perturbar. Tal qual eu com minha escrita, talvez a partir de uma compreensão que ele e eu partilhamos, mesmo sem saber, de que qualquer interferência é parte, não distração. Sob o entendimento de que o ruído é parte, mas em outro alfabeto.

Aqui, neste pequeno diâmetro que circunscreve um lugar, há uma proliferação de histórias. As histórias dos que circulam sobre os pés, as histórias dos que circulam atravessadamente pelas letras, as histórias dos que circulam carregados como cangurus, provavelmente sem mesmo saber que circulam e que são carregados, as histórias dos que são empurrados sobre rodas… são todos artigos indefinidos de formas de vida, em eterna disputa entre a identidade e a significância abstrata.

Duas crianças aparecem ao meu lado com cobras de plástico às mãos e assustam sua avó. É a história dessas crianças e sua avó, artigos indefinidos, que agora fazem parte da minha história. É da história delas, abstrata, que tento apropriar-me e transformá-la, por sorte inconclusivamente, em identidade minha. Tudo o que consigo é unir no papel a abstração delas à minha.

Um outro menino aparece por aqui, para conhecer um bebê, e se atreve apenas a tocar seus pezinhos. E só agora me parece muito estranho chamarmos pequenas crianças de bebê, duas sílabas que juntas parecem não trazer significado algum. Gosto mais da palavra neném. Mas assim, ao pensar sua sonoridade, me parece igualmente tola. Como que se através desses sons se buscasse comunicar tão somente a infantilidade dos bebês e nenéns, que não têm nada de pueril, apenas requerem cultivo de toda sua potência.

Aos poucos, nesse movimento entre observar, refletir e escrever, que pode ser traduzido pelo exato movimento de minhas têmporas, parece-me que meus motivos mudaram, e nem sei por quê. Seguramente interferências, mas não poderia entregar-me à tarefa vil de enumerá-las. Mas é certo que eu, enquanto esse ser abstrato que busco enclausurar, mudei. Porque a vida mudou. Porque eu e vida mudamos minha vida. Porque mundo mudou. Porque mundo acontece em mudanças e permanências, que também são uma forma de mudar. E porque eu e mundo nos desenrolamos em uma dança apenas, infindável, por diversas músicas. Essa dança que eu danço, e mundo também. E que esse eu que sou eu, pode ser, e é também, outro que dança. Nesse lugar que é meu, e não é meu.

E eu, e eu. E outro, e outro. E outro eu. Eu outro. Que dança e que dança. Neste mundo que sempre está aí. Que não importa para quem, sempre haverá mundo. Nesta concepção maior da eternidade: mundo não tem fim!

Pensável ou não, o que existe é mundo. Mais que a imensidão das imensidões; a imensidão atualizada é mundo. Um tudo que é o todo que se transforma, e que enquanto o faz, tão simples é. Uma existência pela rebeldia de ser em atualização.

…. “isso daí dá coceira”.

E paralelamente, apesar de toda essa elaboração, que parece livrar-me do encargo de qualquer ação, parece que estou pela vida a empregar esforços na tentativa de formar um todo que alguma força espalha, e coloca para longe de mim.

É como se eu fosse uma ilha bem pequena, que gostava mesmo era de ser continente. E nessa busca, a cada vez, soltasse um pedaço de mim ao mar, na esperança do contato das beiras. E assim vislumbro que nesta sina ainda deixo de ser ilha, sem tornar-me continente. O lugar de mim será água salobra, provinda de mim. Como se o destino fosse não dançar infinitamente, mas tornar-me oceano: inconsistência especular.

Enxergo que enquanto permanece alguma ilha de mim, há qualquer força terrena. Bastaria mesmo era que de dentro de mim, eclodisse um vulcão e que o transbordamento fosse não de água salobra, mas lava fumegante em direção a todas as beiras. Que nessa violência eruptiva construísse chão sobre as águas, formando istmos, alongamentos de mim e mundo.

Mas esse vulcão é o que procuro e me falta. Que sou feita de terra e água. Que ao nascer, me foi negado o fogo. Pois que sou terra antiga, esfriada. E água persistente, sempre a transitar. Pois que este fogo, que nunca me faltou e hoje é ausência, seria a possibilidade única da dança entre o movimento da água e a permanência da terra.

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