Assim, em várias tardes de silencioso lamento buscava eu, na tentativa de algum sentido, compreender que perder uma conversa é não ter mais um interlocutor que nos permita ver ideias próprias, e ideias do outro, e ideias do mundo. Porque como se por um evento de rompimento, a conversa não existisse mais. Poderia dizer que é exatamente a perda de um dialeto, ou de uma linguagem, quando assim preferir. A amputação de alguma coisa que não se sabe o quê, mas que inibe os pensamentos e a fala. Alguma coisa que se perde e que faz, então, circular pelos mesmos círculos do pensamento – alguma coisa que faz do fio um labirinto. Alguma coisa da ordem da subtração da alma. Alguma coisa que não faria falta alguma se todas as conversas com todas as pessoas se repetissem. Alguma coisa que só faz sentido e só faz falta porque reside numa pluralidade que por nunca se realizar inteiramente, sobrevive.

Penso realmente em alguma coisa que não pode ser avariada sem avariar. Penso na avaria de um por dizer, morador de um por vir, que avariado não é nada mais que um vazio em mim, dentro de uma ausência do outro. A relação do que não é mais relacional.

Isso de que dizemos não é sobre fidelidade, como bem disse aquele, mas sobre uma coisa de comprometimento pelo fluxo de ideias, uma responsabilidade na troca das perguntas e frases cheias de charme. Um jogo que tem por regra principal não ter fim, e por objetivo o pertencimento ao outro, não no sentido da propriedade, mas no sentido do laço, do fio que é trançado entre um e outro e que é sustenido pelo cuidadoso uso desse fio: no esforço constante e mútuo ao entendimento. De conservação de um fio tão quão invisível quanto sensível.

Conversa é uma obra de delicadeza.

E ainda me diz aquele mesmo, que a amizade parte deste chão: a “sensibilidade aos signos emitidos por alguém”. É condição ao exercício do pensamento. E aí nos importa que amizade devém dessa sensibilidade, que fio devém dessa amizade. E aí nos influi a constância ao pensamento, não mais a fidelidade à carne dos amantes; e aí nos influi aqueles que podem amar por esse fio de que falamos, de que trançamos. Daí a paixão fraterna ser tão mais sublime que a paixão do acometimento. Daí a paixão fraterna ser fio de compreensão. Daí a paixão fraterna ser quase tão amor.

Amizade é o parto contínuo da delicadeza.

Mas o sublime de que falamos, eu e aquele, não nos parece estar em qualquer parte. Pois que a sensibilidade não parece se doar ao signo de todos sem comprometimento. Talvez por isso algumas conversas pareçam, ou realmente sejam, mais fáceis que outras, como se esses fios de que falamos já estivessem como que pré-constituídos por dito esforço, ou comprometimento incondicional com a sensibilidade.

O que me interessa é a entrega à sensibilidade.

O que me interessa é o procurar se faz sentido o que se possa sentir.

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