Por alívio, parece enfim outono. Há um cheiro de outono, uma brisa de outono, um sol de outono, bancas repletas de caquis doces, vermelhos e baratos, e um sentimento em resposta a tudo isso que é produzido no topo do estômago.

Às vezes penso que a importância não está no coração, mas no estômago; tenho quase certeza de que tudo que realmente importa é sentido por ali. O início é georreferenciado, e se espalha por toda a pele. Do fundo à superfície. É eclosão.

Mas o outono tem esse negócio de eclosão para dentro. É a estação dos arquivos. Do vasculhar o que há fora que é dentro. Das recordações. Do lembrar. É a estação que serve ao fluxo da memória pura. É um preparo ao recolhimento.

O café no outono é mais saboroso. A quentura serve para além do sabor. A secura do ar emoldura o vapor perfumado que se eleva da xícara. A secura do ar dá espaço aos odores transeuntes. No outono é possível sentir o mundo pelo olfato.

O outono é a estação das músicas melodiosas. No outono é possível sentir as notas soando em fleuma. No outono é possível ouvir o mundo sem pressa.

O outono é a estação em que o sol dá passagem ao céu escuro. No outono é possível enxergar cores em tons alvejados.

No outono meus olhos são cor de cinzas, talvez por isso que me ocupe de olhar ao passado.

(19.05.2019)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s