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05.08.2017

Nem sempre é preciso escrever tanto.

Às vezes as lembranças são memórias  fabricadas. Fecho os olhos, vou a um lugar que não sei se realmente já fui, ou se o criei. Mas lembro de que minha criação também faz parte da realidade. É tão real quando esta dor em minha garganta, provocada por este vírus, que sei que existe, mas nunca pude ver.

Às vezes temo não conseguir mais separar o real do irreal, ou melhor, a lembrança concreta da lembrança criada. Mas que diferença faz? Meu mundo não pode ser menos mundo, só porque o moldei a partir daquilo que a mim foi disponibilizado.

As estradas não estão sempre prontas, às vezes é preciso fazê-las. Veja uma ponte sobre um rio. Alguém a construiu. Alguém precisou conceber a ideia de ponte, antes de sua existência.

Pense no vírus antes do microscópio, alguém precisou imaginá-lo. Hoje, igualmente, ninguém o vê, mas quem dirá que ele não existe, ao sentir dor tão real quanto esta, no simples e involuntário ato de engolir a própria saliva para não se afogar na própria água?

Não lhe soa curioso que passemos uma vida deglutindo? Sem mesmo planejar… apenas a dor nos faz pensar no ato. Essa dor que permite enxergar, que amplia o campo de visão, a dimensão do sensível. Do que se sente.

Dor é uma palavra de três letras que, em sua materialidade econômica sobre o papel não comporta todas as dores do mundo. E por isso precisa ser reescrita tantas vezes. Como qualquer palavra, na verdade.

Assim, incoerentemente, retomo minha primeira frase. Porque é preciso escrever. E reescrever. Para ampliar as possibilidades de significados. Para se aproximar das dores do mundo.

Mas nem sempre é necessária tanta escrita. É verdade. Às vezes, escrever não basta. É preciso aceitar a dispersão dos sentidos; aceitar que não chegarei a todos os significados de dor. Ainda bem! Por ora estou satisfeita com esta dor em minha garganta. Que me censura o engolir, fazendo pensar em sua mecânica a cada ato repetido com o intuito de não se afogar na própria água.

E agora este frio, que me faz pensar que o frio é também produzido em mim, e que o cobertor não basta. E o sono, que me faz pensar que o cansaço está em mim, e que a escuridão e o silêncio não bastam. E a dor na garganta, que me faz pensar que o vírus está em mim, e que o chá não basta. E as palavras, que me fazem pensar que todos os significados estão também em mim, e que escrever não basta.

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11.08.2017

Diferentemente do que acontecia há uma semana, a grande surpresa a cada deglutida é ver a expectativa de dor frustrada.

Aí eu me sirvo um copo de água e bebo-o em um único gole, assim, só para me certificar de que não sinto mais nada.

De alguma forma, a gente se apega à dor.

Agora é falta, mas também alívio.

E ainda assim testo seu desaparecimento a cada novo gole d’água. Mas realmente se foi.

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