O silêncio é tão parte do mundo quanto qualquer som. E silêncio não é ausência de som, ou inexistência de comunicação – afinal, alguém lembrou que há a telepatia!

O silêncio, entretanto, é uma forma de expressão bastante difícil de interpretar, especialmente quando não temos o sentido da visão à disposição.

O mundo é a sobra de si. A xepa de si. A reinvenção de si. A reprodução de si. Matéria que perece, mas cresce.

Deixar-se seduzir é um exercício de entrega que só a curiosidade viabiliza. Toda paixão vem de alguma sedução. Lembro da primeira vez em que me apaixonei por uma molécula de O2, ao saber que estava respirando-a; e por uma molécula de H2O, ao saber que estava bebendo-a. Essa paixão pela essência mais essencial, sedução do mundo mais mundo. O mais primitivo.

Isso tudo, de alguma forma, faz-me lembrar de Vidas Secas. De Fabiano, o silencioso. Gostava de saber que seduções foram vistas por aquele homem que só podia se comunicar com o silêncio ressonante do olhar. Qual teria sido o seu mundo mais mundo, sedutoramente mundo?

Nunca escutei o som que a terra faz em um terremoto. Seria um grito de alívio ou de dor?

Se eu estiver tocando um instrumento imaginário, ao final de dois acordes eu terei três silêncios?

Melodia é uma sucessão coerente de sons e silêncios, linear, com identidade própria. É como conversar com alguém que sabe a hora de calar-se, sem constrangimento na ausência de som. Já tinha pensado nisso, na conversa como melodia? É a primeira vez que me ocorre. Com alguns eu converso, com outros melodio. Com outros só perco o calmo silêncio.

Se melodia inicia-se com mel, não seria pleonasmo falar em doce melodia? E se, na superfície do globo, há intersecções geográficas de sons e silêncios, seria o mundo uma melodia em si, a única não linear, assim como o tempo? O tempo nunca é linear, por isso enxergar o presente como inexistente, ou existente naquela primeira fração de segundos, seria ignorar a percepção do tempo. E o tempo sem percepção simplesmente não existe.

E o tempo não é linear!

.

.

.

Era algum momento passado, e eu estava só. Naquele silêncio a comunicação com a casa realizava-se no olhar e tocar. Especialmente olhar. Olhar. Olhar tanto até expandir a capacidade de enxergar.

Era tão quente que eu intercalava entre qualquer coisa que me ocupasse o olhar, e banhos gelados. Sequer me secava. Às vezes deitava na cama, nua e ainda molhada, buscando um refresco sob o ventilador e no resto de água que, com o calor de meu corpo, evaporava.

Em algum momento, parei-me na frente do espelho e fixei o olhar em minhas pupilas. E como um portal, entrei para dentro delas. E, aí, eu entrava no meu olhar e, uma vez lá e me vendo novamente no espelho, entrava de novo dentro de meus olhos. E de novo, e de novo. Como se fosse um processo infinito, parecido com aquela ilusão ótica de dois espelhos justapostos. Até que de súpeto parei, porque me ocorreu que desse movimento poderia tomar-me a loucura. Porque, de alguma forma, o que buscava ver dentro de meus olhos era tudo aquilo que não conseguia ver no mundo.

E, então, de um silêncio a outro, pus-me a escrever histórias.

Agora lembro-me quando apaixonei-me pelo papel e a sua falta de corretor ortográfico. O papel me responde com silêncios.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s