Acabo de sair do banho e vim atrás de um caderno antigo com capa do Egon Schiele e de título ‘Escritos Matinais 2017/2019’. Pulei 2018, mas o último escrito é de fevereiro de 2018. Por que, eu não sei. Mas talvez porque a cronologia possa ser superada. O texto que queria escrever, o fiz no banho, mas escrevo depois. É a cronologia que importa? O texto que escrevo agora, não é mais o mesmo. Assim como os pensamentos que ontem pela noite faziam sentido, agora não fazem mais – possivelmente pela luz, não porque é depois.

Ontem à noite eu tinha fome e decidi-me por comer um hambúrguer. Acho que porque era algo que dificilmente escolheria comer. Mas o escolhi, como se por comer um hambúrguer eu pudesse sentir o que é ser outra. O comi e passei mal: tinha maionese e o pão era indiscretamente branco e refinado. Mas fui até o fim, porque não preciso sempre fazer sentido. Ou ser cronológica, ou lógica. À merda a lógica!

Queria ter escrito exatamente o que pensava durante o banho, mas talvez tivesse que fazer como Tom Wolfe e levar o caderno junto ao chuveiro. Eu nunca o li, mas tenho um de seus livros em minha prateleira. O pouco que sei sobre ele, vi em um filme. Acho que ultimamente as telas têm me interessado mais que os papeis, e isso não me agrada. Não poderia colocar em uma tela o que pensei durante o banho – ou porque resolvi comer um hambúrguer.

Outro dia falava com alguém por vídeo e assim, de súbito, meu corpo foi tomado por todo o mal estar contemporâneo. Será que esta imagem com quem falo é realmente uma pessoa?, foi o que pensei. E minha mão imediatamente alcançou a tela que estava quente, sim, mas não por sangue, era a bateria que avisava-me de seu ‘ciclo de vida útil’ e que logo precisarei ter dinheiro para comprar outra, e outra, e outra. Que coisa mais bizarra pode ser uma vida útil?! Mas pelo menos vejo que prefiro os papeis. Mas uma tela com vida útil já é extensão de mim. Só pode ser tudo muito sinistro.

Eu estava no banho, já com o sentimento de culpa pela água que se esvaia pelo ralo abaixo de mim, mas a água passeando por meu corpo me forçava a ficar. Só mais uma música, negociei comigo mesma, a água e o ralo. Resolvi ensaboar-me de novo e o cheiro de limão siciliano impregnou o ar. Como é possível guardar cheiros frescos em barras?

As mãos carregadas de cheiro passeiam por meu corpo e encontram minha barriga que logo penso um dia estar recheada por outra vida e tão grande que não me permita alcançar os pés, mas por enquanto o faço para a felicidade de minha coluna. Minhas mãos carregadas de cheiro de limão chegam aos meus seios e logo penso que um dia estarei tão velha que peitos e umbigo terão um grande encontro. É a cronologia.

O espaço do chuveiro é o suficiente para dançar.

Penso em um rio pelo qual navego e não sei se estou a subir ou descer. É um rio não cronológico, corre para os dois lados. Alguém me diria que é um rio impossível, mas não é. É certo que existe.

Ano passado, em minha última anotação neste caderno, eu dizia que o instante supera o tempo e a palavra não supera nada. Não sei o que isso significa. Talvez seja mesmo urgente levar o caderno para debaixo do chuveiro.

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