Água Azul é algo como que um circuito de cachoeiras (ou um rio muito acidentado). Lindíssimo! Estávamos em Palenque, fomos até aí e logo seguiríamos para a cidade de San Cristóbal de Las Casas, no estado de Chiapas. Ao entorno tudo era belo e empoeirado, mas o caminho foi tortuoso – no duplo sentido do adjetivo.

Curva depois de curva. Sobe serra, desce serra, sobe serra. A cada quilômetro, um quebra molas.

Andamos três horas por aí e os primeiros minutos foram somente chatos, ou talvez bonito pela luz do crepúsculo, mas o restante foi puro bravio. A cada curva meu estômago passeava de um lado a outro, como uma rede, cujo movimento não tem fim. Eu estava sentada ao fundo da van que nos transportava, no único lugar que não tinha cinto de segurança e não havia banco logo à frente, também conhecido como o lugar do morto. Ao meu lado, um casal que intercalava a fala entre espanhol e inglês, um americano outro mexicano, supus com obviedade. Meu companheiro sentava na fileira logo à frente, em minha diagonal esquerda, ao lado do vazio a minha frente e de um rapaz que imaginei ser mexicano.

Até aí parecia tudo estar bem exceto pelo meu medo de sair voando vidro afora, alimentado pela minha fértil imaginação para as catástrofes. Pensava se era a hora de embriagar-me com algumas gotinhas do rivotril que carrego em minha bolsa por precaução, e a quem felizmente ainda não sucumbi. Mas estes pensamentos foram logo afastados pelo balanço lateral e frontal de meu estômago. É que nosso caro motorista, entre um quebra-molas e outro alternava entre aceleração e frenagem com uma facilidade nauseante.

Assim eu segui, tentando controlar-me pela respiração. Meu compromisso maior já não era com o medo, mas com meu estômago, que buscava equilibrar-se entre minhas entranhas como um cuenco maya de base côncava do clássico tardio, instantes antes de transbordar. Maior o balanço, mais funda era a respiração, e eu repetia a mim: inhale, exhale. Sim, em inglês, e não saberia dizer por quê.

Em algum momento prestes ao desespero, apanhei uma sacola de dentro da mochila, que segurei durante todo o trajeto. Assim, de olhos fechados e sacola na mão, respirava fundo, sentia o balançar entremeio equilibrava meu cuenco precário, enquanto no rádio cantava Roberto Carlos em espanhol, música após música. Não sei se por seu espanhol ou ele próprio, a trilha sonora só fazia piorar o enjoo e pergunto-me se este não seria o enredo excelente do terror mesoamericano. A náusea venceu o medo.

Vez ou outra eu sentia uma mão que acariciava meu joelho; era meu companheiro dando-me força para seguir viagem. Eu o agradecia com o silêncio e pensava se teria capacidade para ajudar-lhe em semelhante situação ou se verteria o cuenco juntamente, e julguei pela minha incapacidade. Senti-me fraca, mas pensei que ao menos ele poderia contar com meu apoio moral.

A esta altura, em meu lado esquerdo, o casal roncava com honradez e aos poucos escorregavam para cima de meus ombros. Eu queria ser assim, pensei: dormir fácil, roncar, acostar-me no ombro alheio com satisfação. Mas disto também sou incapaz. Porque devidamente treinada e tolhida para não incomodar ninguém – controlada quase que por uma rolha no fiofó. Triste. E assim resta-me sofrer acordada e contida, até o momento em que os nervos se rompam, ou o cuenco se verta. Tudo sob controle!

A cada vilarejo que avistava na estrada, perguntava a meu companheiro se já era San Cristóbal, que olhava em seu mapa no celular e me dizia o quão longe ainda estávamos, mas às vezes me enganava e dizia que era sim nosso destino. Finalmente, quando vi a placa da cidade, meu corpo foi tomado por um certo alívio e assim que pisei em terra, com minhas entranhas ainda balançando, enfiei meu pé em uma poça suspeita sob o frio de dez graus.

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