Sobre pedras. Abaixo de pedras. Crânios convertidos em pedras e muros. A imensidão é pedra!

Neste lugar de pedra e savana certifico-me de que o problema de DF não está na secura do ar, mas na contaminação – palavra muito mais adequada que poluição.

A imensidão é pedra.

À minha direita uma pirâmide dedicada ao Sol, majestosa e coberta por pequeninas cabeças sustentadas por delicados corpos que por ela circulam, mas não em oferenda. Fico aqui, parada, a quilômetro de distância, fitando-a com muita atenção, curiosidade e algum receio, algo me diz que seria um processo de humilhação ascender por seus degraus. Que não caberia a mim o caminho, pois não poderia saber o que estaria fazendo.

Por esta imensidão de pedra, corpos brancos e longilíneos circulam quase que com pressa e, com certeza, alguma arrogância. Um francês com uma boina emprestada do Comandante e vestes customizadas com motivos Apache passa por mim, onde estou sentada. Vejo que a tiracolo porta uma câmera com capacidade para muito zoom e um botão que é pressionado incessantemente. Com pressa. Pressiona e caminha. Pressiona e caminha. É um francês de conga nos pés.

E ao redor a imensidão é pedra.

Pelo meio da praça passeia um cachorro, primeiro lentamente, e depois corre. Do outro lado da praça, sobre os degraus, outro cachorro senta-se e observa. Um cão contemplador. Algo me conecta a ele e não aos transeuntes, talvez porque estamos sentados, ou talvez porque ele também esteja com receio de subir na pirâmide do Sol e, como eu, contenta-se em admirá-la a distância.

Crianças testam a acústica da praça, o cachorro não se move e eu ponho-me a andar. Há muito que se ver em uma imensidão de pedra. Chego perto de acelerar os passos, mas antes essas pedras misteriosamente esculpidas me previnem: como podem ter pressa se ainda estamos há cem anos antes de Cristo? Como podem ter pressa se o tempo é outro? Como podem ter pressa se ainda não temos relógios e hora marcada? Como podem ter pressa se não temos para onde ir?

Observo que um grupo passa pelo cão sentado que não se move, apesar das fotos. O grupo retoma a caminhada, são americanos. O cão ali permanece. Talvez também seja pedra.

Ao andar um pouco mais, descubro que há dois, três, quatro, cinco ou quantos cães mais por aqui, também imóveis. Penso que são os atuais habitantes da cidade e que com as pedras aprenderam a quietude, enquanto que humanos circulam com pressa. Uma matilha que partilha de um silêncio memorioso. “Um cão que tem uma imensidão de pedras não quer guerra com ninguém”, me fala um deles.

Ao olhar para cima, as pedras me dizem coisas que não posso compreender. E ao olhar para baixo, os registros nessas pedras em forma de canaletas me contam que aqui havia muita água. Onde foi parar toda esta água? Onde a matilha se refresca? Provavelmente no riacho San Juan, quase seco.

As pessoas que por aqui passaram dominaram a pedra; e intriga-me que nos museus tenha visto muitas ferramentas para trabalho fino e nenhuma para o trabalho brutal de domesticação. Como é que se tira de uma montanha para construir outra montanha? Olho para a imensidão de pedra e tento imaginar onde estariam as montanhas dos Deuses antes das montanhas dos homens para os Deuses. E tenho a compreensão literal de que a fé move montanhas.

Finalmente ponho-me a subir, e neste caminho parece que estou em uma passagem ao céu. Mas, em verdade, é nas catacumbas, abaixo das pirâmides, onde se pode comunicar com os Deuses. Então porque ascendo, me pergunto. E a única resposta que tenho é a de que subo porque não posso descer à imensidão de pedra sob pedra.

Teotihuacan é uma escultura monumental.

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