Desde que o mundo é mundo.

“Desde que o mundo é mundo” é a presunção de que se sabe de todo o tempo do mundo, desde o início de sua existência. Mais, a presunção de que se sabe o significado de mundo.

Para a filosofia mundo é tudo aquilo que constitui a realidade. Mas nós, enquanto seres de cinco sentidos e um único cérebro, não fazemos ideia do que é a realidade, menos ainda do tempo de existência da realidade. Desde que o mundo é mundo, quer dizer, desde que a realidade existe. O que não faz sentido qualquer.

Não se sabe todas as coisas que cabem no mundo, mas o mundo é chão!

No chão,
Uma vastidão. 

Sendo superfície, o chão não tem lado de dentro ou lado de fora. Mas as partes do mundo parecem enxergar tudo de uma perspectiva de dentros e foras.

Eu, como parte dessa abstração, de mundos e chãos, me pergunto se estou no lado de dentro ou no lado de fora.

Mas essa dicotomia entre interno e externo, sendo a pele a fronteira, é irrelevante. O mesmo vale para o mundo, a dicotomia dentro-fora, tendo o chão como fronteira, é irrelevante. O chão é a continuidade e, nessa condição, não comporta dicotomias, ou fronteiras. A divisão do chão é abstração insana.

Há que se olhar para o chão. Nós olhamos para o céu, mas, até hoje, o futuro sempre veio de dentro do chão.
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19.10.2017 – A imensidão é verde

O avião já decolou e depois de dez minutos de voo só o que vejo é Amazônia. De tão imensa, me faz ter que enfrentar a pequenez de meus problemas nessa existência; mas diferente do que meus olhos veem, meu coração lembra-me de todas as emoções que posso sentir simultaneamente e da confusão que esse tudo me traz. Meu coração se aperta, como se desse movimento fosse possível fazer os olhos verterem água, da mesma forma que o movimento da pedra dura se concretiza em rachadura e dali nasce uma fonte.

Pela janela veem-se apenas três cores: azul, verde e branco. O verde é tão grande quanto o azul. Colados na janela, vendo essas cores, meus olhos se embaçam. A turvação é pelo que vejo, não pelo movimento de constrição em meu coração, que já até havia esquecido. Nada mais faz sentido, que não a ode da travessia; que não o sangue que pulsa da sola dos pés pelo contato com o chão e irriga todo o corpo. Nada mais faz sentido que não a respiração da menor das folhas, que me permite também respirar.

Com licença senhora, aceita bebida? Alguém me pergunta. E fora da janela a imensidão que ocupa o profundo dos olhos, que querem enxergar quase até engolir a visão, como se fossem um portal. Mas é tanto verde que não cabe dentro de meus olhos. Tanta respiração que não caberia em meus pulmões. Cabe apenas no azul do céu, tão grandioso quanto. E, nesse choque de moléculas, os rios podem voar, e virem até mim, me permitindo respirar na outra ponta do hemisfério.

Uma estrada de terra recorta a floresta. Quantos anos será preciso até que o verde recupere seu território? Quantos rios voadores? Eu olho pela janela e o que enxergo é uma imensidão muito anterior a mim, ou qualquer existência que aluda à minha existência. É a mesma vastidão que há pouco vi pelo precipício, a um passo de meus pés. Naquele abismo que se encerra em um belo vertiginoso.

Qual o sentido de toda essa grandiosidade que não ser, independentemente de qualquer sentido que lhe seja imposto?!

Qual o sentido do curso do rio que segue por vias sinuosas harmonicamente acomodadas – muito diferente da linha reta da estrada de terra?

Qual o sentido que faria mais sentido, que não a incompreensão de qualquer sentido que se queira atribuir?

Qual o sentido de meus batimentos cardíacos se acelerarem pela emoção, e não pela velocidade dos passos?

Esse sentido que faz meu coração disparar é apenas uma porção infinitesimal do meu minúsculo sentido de breve existência: essa esperança incontrolável de encontrar algum sentido nisso tudo.

04.01.2018 – A IMENSIDÃO É COCO

Estou só. Há tempos não me encontrava só. Acho que a última vez foi em 2011. Às vezes me sinto culpada por estar só. Mas na maior parte do tempo sinto-me muito livre. No volume que leio, um dos personagens me diz que “a vida verdadeira ocorre quando estamos sozinhos”. Sem mais explicações, o compreendo. Simplesmente. Aquiesço.

Esses dias em que se caminha só são necessários.

Coco e areia. E mar.

A imensidão é o imenso que cabe de mar a mar. De aqui, se sigo por uma linha reta, vou à África. De África, à Europa. De África, à Oceania. De África, à Ásia. Se caminho pelo mar, conheço o mundo.

A terra é cor de terra; laranja, cinza, marrom. A Terra é cor de mar, cor de meus olhos, cor de céu, cor daquela cor, o azul. A Terra é azul.

A imensidão continental é coco. Intervalada pelo espaço equivalente ao diâmetro das copas das palmeiras. Palmeiras são mulheres esguias de cabelos esvoaçantes e pesados brincos. A imensidão é feminina.

A imensidão é coco. Eu olho para a esquerda, coco. Para a direita, coco. Para frente, coco. Atrás de mim o rugido do mar define a fronteira das imensidões.

O mundo é azul. O mundo é imenso e de tão imenso não cabe mais na imensidão. O azul é imenso e de tão imenso não lhe coube o chão, foi ao céu, ocupar a imensidão do céu, que é maior ainda. E, de tão imenso, não pertencendo mais a imensidão alguma, o azul comprimiu-se dentro da circunferência de meus olhos. Para só então ver a imensidão de si.

A pedra já foi uma grande pedra. Uma imensidão de pedra. O tempo a reduziu em areia. Menor em tamanho, maior em quantidade. Ocupa o mesmo espaço, só que mais perto do chão, mais perto da terra, mais longe do céu. Desceu do alto, só, ao fundo, multiplicada. A areia é a pedra mais sábia, porque serve de caminho. A areia é a pedra mais longe do tempo, mais próxima da eternidade. Ainda pedra, mas também areia: a areia é a duração: o tempo mais longe do tempo.

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01.02.2018 – MAR DE PERNAS

Por entre automóveis, gentes, ruas e morros caminho, em logradouros públicos, desviando da fumaça. O movimento existe, mesmo se estou inerte. A permanência exige tanta força que a paralisação não é inércia. Pessoas partem e chegam, o trânsito é a constância que circula. Sinto-me naquele poema, cheio de pernas e, igualmente, com o coração abarrotado de questões, mas sem pergunta alguma nos olhos.

É um olhar desguarnecido que enxerga através; qualquer espectro do que é. Quase nada é visto, além do movimento à beira de mim. Assisto opacas alegorias. Os rastros são a fumaça de que desvio.

As tardes são azuis, os desejos quase nenhum. Mas as pernas são muitas, uma após a outra, em um ritmo que nunca encontra sossego. São pernas inquietas que, no constante movimento, apagam os rastros de si. Como o mar, que sucessivamente apaga as marcas deixadas na areia.

Pelos dias eu caminho, por entre automóveis e gentes, mas sobre a calçada que cobre o chão, não me é permitido deixar marcas.

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05.06.2018 – É a imensidão que intimida e, ainda assim, habito-a.

Eu tentava entender toda a extensão do mundo no chão que se percorre nesse vai-e-vem de pernas. Todo esse chão, alegoria de amparo. O amparo maior. Se tivesse que apontar um deus ainda não criado pelos homens, seria o deus do chão – o último dos recursos. O último dos abraços. O maior dos leitos. A maior das imensidões tangíveis. Cobertura de essências.

Toda essa imensidão de meus pensamentos que transbordam para fora de mim, descendente de poeira cósmica, que supera o peso de qualquer corpo celeste, mas que, ainda assim, o chão suporta.

A aflição é tamanha, que só me satisfaria deitar-me no chão. E permanecer, até que tivesse novamente forças para viver na posição ereta.

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